3 - VÍRUS: “FLUÍDO VENENOSO”

Afinal, vocês são seres vivos ou não vivos?
Você sabia que na antiga Grécia acreditava-se que doenças da humanidade haviam sido trazidas por Pandora, a Eva grega, guardiã de uma certa caixa cujo conteúdo ela desconhecia? 
Conta a história que certa vez, por curiosidade, Pandora resolveu abrir a caixa e, ao levantar a tampa, deixou escapar todos os males do mundo. Por sorte, o deus Asclépio (também chamado Esculápio, pelos romanos) possuía um bastão com uma cobra enroscada, cujo poder espantava as doenças. 
No século XVII, por volta de 1630, aconteceram muitos flagelos de doenças infecciosas, como a peste bubônica que voltou a atingir a Europa, causando 86 mil mortes. Esse fato fez com que as pessoas deixassem de acreditar no mito de Pandora e passassem a aceitar a explicação que essas epidemias eram causadas por influência dos astros. 
Como a astronomia estava em expansão, o físico alemão Johannes Kepler (1571 – 1630), descreveu as leis planetárias e anunciou que a peste era influenciada pelos planetas. Surge então essa nova explicação para a origem das doenças, o movimento dos planetas. É também a partir dessa explicação que surge o termo “Influenza”, a influência dos astros.
Por muitos séculos, as doenças foram associadas às crenças e superstições. Porém, com os estudos sobre as células e os microrganismos, diretamente ligados ao aperfeiçoamento do microscópio, esses fatos foram sendo esclarecidos.
Antony van Leeuwenhoek, também holandês, por volta de 1668, aprendeu a polir lentes com muita precisão, com as quais observou fios de cabelo, pulgas e pequenos insetos, além de realizar a primeira descrição detalhada dos glóbulos vermelhos. Leeuwenhoek descreveu diferentes seres vivos, seus tamanhos, como se moviam e quanto tempo viviam as bactérias, algas e protozoários presentes nas águas de riachos e lagoas. Estes pequenos seres vivos foram descritos como “animálculos”. Inicia-se a partir desses fatos, a história da microbiologia
A primeira referência aos vírus foi feita por Louis Pasteur (1822 – 1895) no final do século XIX. Em 1880, na tentativa sem sucesso, de cultivar o agente causador da raiva (hidrofobia), Pasteur utilizou o termo vírus, que em latim significa “veneno”. Poucos anos depois, desenvolveu-se a técnica de esterilizar soluções por filtração. Os filtros eram capazes de reter as bactérias, mas deixavam passar alguns agentes patogênicos - microrganismos menores que as bactérias. 
Em 1892, o botânico Dmitry Ivanovski (1864 – 1920) caracterizou o vírus do mosaico do tabaco (doença comum nas folhas do tabaco). Mas somente em 1899, o botânico Mariunus Willen Beijerinck (1851 – 1931), investigando a mesma doença, descobriu que injetando extratos das folhas de tabaco doente, transmitia para plantas sadias a mesma doença. Acreditavam, então, tratar-se de “germe vivo solúvel”, que se proliferava em células vivas das plantas. 
Alguns anos mais tarde, entre 1915 e 1917, dois bacteriologistas descobrem a existência de seres que “comem bactérias”, denominando-os de bacteriófago (vírus que atacam bactérias).
Então até 1917 não se conhecia a existência dos vírus? 
Os registros de doenças provocadas por vírus são milenares. Hieróglifos datados de 1400 a.C. descrevem a sintomatologia da poliomielite. A perna atrofiada da figura masculina neste baixo relevo do Egito Antigo, indica a existência da poliomielite na Antigüidade.
As pinturas e os hieróglifos nas paredes eram formas de inventariar a vida e as atividades diárias dos soberanos falecidos, nos mínimos detalhes. A pintura e a escultura obedeciam a padrões rígidos de representação da figura humana. Em muitos quilômetros de desenhos e entalhe em pedra, a forma humana é representada em visão frontal do olho e dos ombros, e em perfil de cabeça, braços e pernas. Um fato interessante é que o tamanho da figura indica a posição social que a pessoa ocupa, ou seja, os faraós são representados como gigantes, sobressaindo-se entre criados do tamanho de pigmeus. 
No século V a.C., o médico Hipócrates (460-377 a.C.), registrou a ocorrência da caxumba e, possivelmente, da gripe (ou influenza) na ilha de Thasos. Descreveu a caxumba, com referências à inflamação dos testículos (orquite) que, segundo os estudos atuais, pode ocorrer em 25% dos casos, principalmente em jovens. Atribui-se a Hipócrates também, o primeiro relato de hepatite benigna. 
O faraó Ramsés V que morreu por volta de 1500 a.C., sobreviveu à varíola, o que é testemunhado claramente pelas marcas das lesões (pústulas) deixadas em sua pele e preservadas pela mumificação. 
O vírus da varíola foi pela primeira vez assim designado no ano 570 d.C., por Bishop Marius de Avenches, na Suíça. A palavra deriva do latim, varius ou varus, que significa bexigas. Esta doença afetou em muito o desenvolvimento de civilizações ocidentais e foi uma das grandes pragas ultrapassando a peste negra, a cólera e a febre amarela no seu impacto. Foi também a causadora da queda de alguns impérios. 
Com o crescimento da agricultura no nordeste africano - Egito e Mesopotâmia, por volta do ano 9000 a.C., houve uma aglomeração das populações humanas, o que permitiu a transmissão da doença de pessoa para pessoa, sendo mais tarde levada por mercadores para a Índia, Ásia e Europa. Em 1350 a.C., a primeira epidemia de varíola ocorreu durante a guerra entre os Egípcios e os Hititas, causando o declínio da civilização Hitita. 
Também na China, por volta do ano 1122 a.C., foi descrita uma doença aparentada com a varíola. Em documentos chineses datados do período entre 37 e 653 d.C., há relatos sobre a varíola e também o sarampo e a raiva (hidrofobia). Em algumas culturas antigas, a letalidade da doença era tão elevada entre as crianças que estas só recebiam o nome se sobrevivessem à doença. 
A doença até então era desconhecida no Novo Mundo e foi introduzida pelos Espanhóis e Portugueses, tornando-se uma espécie de arma biológica que ajudou a provocar a queda dos impérios Asteca e Inca. Estima-se que cerca de 3,5 milhões de Astecas morreram vitimados pela doença num espaço de dois anos. Este enorme declínio populacional foi devido ao fato de as populações indígenas nunca antes terem estado em contato com este agente infeccioso, sendo particularmente suscetíveis a este.
 
Assim, a ciência continua a se perguntar: Como vocês são? Qual é a sua estrutura? 
Por conta do aperfeiçoamento do microscópio e com as contribuições da microbiologia e da medicina foi possível identificar os microorganismos como causadores de grande parte das doenças. 
Com o desenvolvimento da pesquisa sobre os vírus, foi possível identificar a existência de uma perfeita relação bioquímica entre a natureza molecular de cada tipo de vírus e certos receptores específicos da superfície das células, justificando o tropismo dos vírus por determinados tipos de tecidos. Assim, o vírus da gripe ataca as células das vias respiratórias; o da hidrofobia (raiva) ataca as células do sistema nervoso; o da caxumba acomete as glândulas salivares parótidas; o da Aids destrói os linfócitos T4 do sistema imunológico. Por isso, os vírus são comumente classificados como pneumotrópicos, neurotrópicos, adenotrópicos, dermotrópicos, ou seja, de acordo com o tipo de célula com a qual se estabelece a relação bioquímica. 
 
Qual a contribuição do microscópio eletrônico para o estudo desses seres?
Como você já percebeu, eles são seres extremamente pequenos. Suas dimensões estão entre 10 a 300 nanômetro (nm), visíveis apenas ao microscópio eletrônico. 
O incrível é que ao fotografá-lo no microscópio eletrônico, reconheceu-se que a estrutura básica de todos os vírus é a mesma, ou seja, não apresentavam estrutura celular. São dotados de um cerne (miolo) de ácido nucléico (DNA ou RNA), envolto por uma cápsula de proteína denominada capsídeo que, por sua vez, é formada por unidades chamadas capsômeros. 
Eles podem ter o material genético formado por DNA de fita dupla (DNAfd), DNA de fita única (DNAfu) ou RNA de fita única (RNAfu), mas em nenhum caso, ocorre a presença dos dois ácidos em um mesmo vírus. A reunião do ácido nucléico com o capsídeo forma o nucleocapsídeo do vírion, que é o vírus completo. Pesquisas recentes indicam a existência de um vírus híbrido (com DNA e RNA), o citomegalovírus, que está entre os oito tipos de herpesvírus patogênicos para o homem. 
Onde está a célula? Em alguns casos, os vírus realmente são formados apenas pelo nucleocapsídeo, mas em outros existe um envelope (envoltório), que é a parte mais externa do vírus. Esse envelope é formado por proteínas do vírus mergulhadas em lipídios derivados da membrana plasmática da célula que ele está parasitando (os vírus podem parasitar apenas determinados tipos de células, e isso depende das proteínas que eles possuem).
De acordo com os seres vivos que parasitam, podemos considerar quatro grupos de vírus: 
•    bacteriófagos: parasitam bactérias; 
•    micófagos: parasitam fungos; 
•    vírus de animais: parasitam animais; 
•    vírus de plantas: parasitam plantas. 
É importante lembrar que o fato de um vírus pertencer a um determinado grupo não significa que ele possa parasitar qualquer indivíduo desse grupo. Por exemplo, um vírus que parasite um determinado animal pode ou não parasitar animais de outras espécies.
Mas, agora é preciso tentar situar os vírus na história da evolução da vida no planeta Terra. Uma das explicações da ciência é que eles se originaram dos fragmentos de ácidos nucléicos liberados pelas células primitivas nos oceanos, onde foram envolvidos por proteínas e adquiriram a capacidade de autoduplicar-se dentro de uma célula e serem transmitidos para outras.
 
Você deve ter percebido que não falamos de vírus masculinos e femininos. E então, como eles se reproduzem?
Para se reproduzir os vírus precisam invadir células e “seqüestrar” o mecanismo celular da sua hospedeira. Razão pela qual os vírus são também chamados “parasitas obrigatórios”. Ao invadir a célula hospedeira ele interfere no mecanismo de reprodução para “forçá-la” a produzir novos vírus. A este processo chamamos de replicação, pois os vírus fazem cópias idênticas de si mesmo.
Para você entender o processo de reprodução, usaremos o vírus ‘bacteriófagos’ ou ‘fago’, que é um dos vírus mais estudados, pois ataca as bactérias reproduzindo-se em seu interior. Estes vírus são inofensivos ao homem e a outros animais.
 
Mas afinal, eles são seres vivos ou não? 
São muitos os requisitos necessários para um organismo ser classificado como ser vivo. Destacaremos apenas alguns: presença de ácido nucléico, capacidade de deixar descendentes, suscetibilidade às mutações, absorção de nutrientes, digestão, excreção, respiração, armazenamento e utilização de energia.
Embora o estudo dos vírus tenha começado há pouco tempo, a ocorrência de viroses é tão antiga quanto a própria humanidade. E apenas saber que existiam seres menores que as bactérias, pouco ajudou no combate de doenças por eles causadas. Seria preciso conhecê-los melhor, descrever seus mecanismos de reprodução, formas de contágio, para assim, evitar novas vítimas.
Uma das mais eficientes soluções para as doenças virais é, até agora, a vacinação. A vacina é o mais importante mecanismo utilizado pela medicina preventiva. Existem também, drogas que tratam os sintomas das infecções virais. A vacinação consiste basicamente em estimular o organismo a produzir anticorpos, proteínas especiais capazes de impedir a manifestação de determinadas doenças, ou ainda fazer com que estas apareçam de forma mais branda e menos perigosa para o paciente. Os anticorpos são altamente específicos, ou seja, cada anticorpo reage somente contra determinada doença. Por exemplo, o anticorpo que combate o vírus da gripe não combate o vírus do sarampo, e vice-versa.
 
Por falar em virose, você já ouviu falar da gripe aviária ou gripe do frango? 
Os meios de comunicação informam a todo o momento a preocupação dos agricultores, dos consumidores e das autoridades sanitárias com a nova epidemia dessa gripe.

A doença foi identificada pela primeira vez na Itália, há cerca de 100 anos. Acreditava-se que a gripe só infectava aves até que os primeiros casos humanos foram detectados em Hong Kong, em 1997. Na época, todas as aves - em torno de 1,5 milhão - foram mortas em três dias. Esta medida foi decisiva para conter a epidemia. 
A gripe do frango tem apontado uma taxa de mortalidade elevada em humanos. Em 97, seis das 18 pessoas infectadas morreram. Nesta nova crise, sete mortes foram comprovadamente causadas pelo vírus. Para efeito de comparação, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) já matou 800 pessoas em todo o mundo e infectou 8.400 desde que surgiu, em novembro de 2002. Um outro problema identificado: o vírus pode sofrer mutações rápidas e infectar outros animais. 
Todas as aves são suscetíveis à gripe, mas algumas espécies como patos, são mais resistentes. Os frangos e os perus são particularmente vulneráveis. Eventualmente, porcos também podem ser infectados. Quanto às pessoas, elas pegam a doença por meio de contato direto com aves vivas infectadas. O vírus está presente nas fezes das aves, que secam e são pulverizadas, e depois podem ser inaladas. O vírus consegue sobreviver por um longo período nos tecidos e nas fezes das aves mortas, particularmente sob baixas temperaturas. 
Os sintomas dessa doença são similares aos de outros tipos de gripe: febre, mal-estar, tosse e dor de garganta. Também já foram registrados casos de conjuntivite. Nos pacientes que morreram, a doença caminhou para uma pneumonia viral. Existem 15 diferentes variações do vírus, mas é o vírus H5N1 que infecta os humanos e pode causar a morte. Dentre os vírus deste tipo, foram encontradas variações. Os vírus analisados, hoje, também são diferentes dos tipos vistos no passado. 
(Adaptado de: Veja on-line, 27/01/04).

 
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