5. Introdução: Teoria do Conhecimento

Os conteúdos aqui desenvolvidos sobre teoria do conhecimento são recortes pontuais de uma história de abordagens do problema do conhecimento. A Teoria do conhecimento, como o próprio nome sugere, é uma abordagem teórica sobre o conhecimento. 
É necessário, porém, ter uma noção clara sobre esse aspecto “teórico” do saber, afinal, boa parte do que entendemos por conhecimento não é “teoria”, mas é habilidade, hábito, destreza. Exemplo emblemático é a habilidade de falar a língua portuguesa. Não é necessário conhecer a teoria da Língua Portuguesa (gramática) para falar português: basta estar em contato com o modo como os falantes da língua se comunicam. Mas de que serve então a gramática? Sua função não é ensinar a falar, tarefa que seria inútil, já que todos falam. A gramática ensina a estrutura histórica da fala, como ela foi se constituindo a partir da prática da comunicação e quais influências ela sofreu do contexto cultural, econômico e social do povo. Não se pode dizer que, em língua, a teoria cria a prática. Mas é certo que uma prática de comunicação vai elaborando, historicamente, uma gramática. 
O exemplo acima é um caso típico que revela as diferenças, mas também a complementaridade entre prática e teoria, está também chamada análise, termo bem familiar aos alunos de português que se debatem com as análises sintáticas. Muitas vezes a filosofia sofre graves distorções no âmbito escolar porque não se reflete bem sobre a especificidade do trabalho de análise. Para não se cometer injustiças com a disciplina, seria oportuno fazer as seguintes comparações: uma gramática é uma análise estrutural de uma língua; uma física é um mapa das estruturas matemáticas do universo; uma filosofia é uma geografia conceitual (Ryle) do pensamento, de suas leis, possibilidades e limites. A escola, aliás, é um grande centro de visitação e compreensão das teorias ou análises literárias, artísticas, científicas e filosóficas que constituem o conhecimento humano. 
Conscientes dessa característica do ensino, sobretudo no nível médio, optamos por elaborar um material que permitisse duas coisas: em primeiro lugar um fôlego maior no texto explicativo. Essa estratégia tem, no entanto, um preço: limita bastante o número de filósofos abordados. O segundo ponto é a exposição de filósofos. Os conceitos filosóficos são produzidos historicamente. Eles são resultado do trabalho de filósofos que, em confronto e debate com seus pares, tecem e estruturam suas próprias redes conceituais e sistemas. Os Folhas deste conteúdo estruturante trabalham, portanto, os temas gerais da teoria do conhecimento, tais como verdade, ceticismo, justificação etc., no horizonte do pensamento de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, entre outros. 
O conteúdo O Problema do Conhecimento, trata da definição platônica do conhecimento. Platão é o primeiro filósofo a examinar sistematicamente o problema do conhecimento. Embora haja controvérsia sobre vários pontos da noção de conhecimento em Platão, os historiadores são consensuais sobre o fato de Platão ter delimitado um critério formal para o saber: a razão. Dramatizando literariamente suas divergências com sofistas célebres, como Protágoras, Platão escreveu obras que exploraram as contradições lógicas embutidas nas teses epistemológicas de seus contemporâneos. Aproveitando-se destas falhas, Platão elabora uma forma de investigação filosófica que consiste na busca de uma definição para cada classe de ser existente no mundo. Ter conhecimento é ser capaz de atingir, mediante investigação e estudo, o conteúdo definicional de cada ser ou objeto existente. Como nosso objetivo neste Folhas é explicar a teoria do conhecimento, fugimos um pouco da obra mais conhecida de Platão, República, optando por expor o diálogo Teeteto, onde Platão desenvolve de forma sistemática suas teses sobre o conhecimento.
O conteúdo Filosofia e Método, desenvolve um pouco da história da teoria do conhecimento. O confronto entre Platão e Aristóteles é um dos momentos mais importantes dessa história. Gerações inteiras de filósofos receberam influências do retrato que Aristóteles deu do platonismo, situação que só se inverteu muito recentemente, quando estudiosos modernos retomaram a obra platônica, aliviando um pouco o peso das críticas aristotélicas. Merece destaque a tentativa de explicar um tema bem conhecido na obra de Aristóteles: a ideia de que o conhecimento é uma marcha do particular ao geral, tese célebre que fez muitos pensarem que Aristóteles é um empirista, o que, feitas as devidas análises, revela-se pouco fiel ao pensamento do filósofo.
Neste conteúdo, cujo tema central é a ideia de método em filosofia, é passagem obrigatória o pensamento de Descartes. Optamos pela exposição de uma passagem do Discurso do Método, já que é a obra que popularizou Descartes e fez o mundo conhecer sua metodologia para o conhecimento. Descartes é conhecido por combater a distinção moderna entre ciência e filosofia, aspecto que procuramos retratar no exame de suas regras metodológicas.
O conteúdo Perspectivas do Conhecimento do ponto de vista dos autores abordados, é o mais problemático. Temos consciência que ele justapõe exposições acerca de Descartes, Hume e Kant, os autores que mereceriam um livro à parte. 
Retomamos Descartes como fundador da filosofia moderna do sujeito. Com Hume, procuramos situar em sua obra a crítica ao cartesianismo e, com Kant, fechamos a abordagem da teoria do conhecimento. Kant é incontornável pelos inúmeros temas que formulou em epistemologia, particularmente por ter definido o alcance do conhecimento humano, pela importante análise das categorias que usamos para fazer juízos epistemológicos e, por fim, por ser reconhecido como fundador da teoria do conhecimento na História Moderna.
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