6. O Problema do Conhecimento

Você já se perguntou se a realidade é de fato aquilo que seus sentidos informam que é? Será que aquilo que você julga conhecer não sofre uma distorção como na imagem abaixo, onde temos a impressão de que as pessoas estão subindo a escada continuamente? A teoria do conhecimento se interessa por esse tipo de problema. Em primeiro lugar, porque os sentidos do tato, da visão, da audição, do olfato e do gosto são os principais instrumentos de conhecimento de que dispomos no dia-a-dia. Em segundo lugar, por não serem os únicos. A razão também é nossa guia. Mas até que ponto podemos confiar nos sentidos para conhecer as coisas? Quais os campos de atuação da razão? Quais seus limites? Será que existe algum critério ou princípio de conhecimento que assegure a certeza e a verdade?

Um Problema Chamado “Conhecimento”
A questão do conhecimento é, provavelmente, o problema mais antigo da filosofia. É verdade que a produção e organização de conhecimentos técnicos, artísticos, agrícolas etc., é anterior ao conhecimento filosófico iniciado pelos pré-socráticos.
(...)no espaço de alguns séculos, a Grécia conheceu, em sua vida social e espiritual, transformações decisivas. Nascimento da Cidade e do Direito, advento, entre os primeiros filósofos, de um pensamento de tipo racional e de uma organização progressiva do saber em um corpo de disciplinas positivas diferenciadas: ontologia, matemática, lógica, ciências da natureza, medicina, moral, política, criação de formas de arte novas, de novos modos de expressão, correspondendo à necessidade de autentificar os aspectos até então desconhecidos da experiência humana: poesia lírica e teatro trágico nas artes da linguagem, escultura e pintura concebidas como artifícios imitativos nas artes plásticas. (VERNANT, 1973, p. 04)
Antes mesmo do nascimento da filosofia na Grécia antiga do séc. V a.C. já há uma cultura estabelecida, sobretudo nos textos épicos de Hesíodo e Homero, mas também na poesia lírica e nos conhecimentos rudimentares que os gregos do século VI a.C. tinham sobre astronomia.
Ao se constituir, a filosofia provoca um afastamento gradual e doloroso desta tradição. Os heróis e os valores presentes nas histórias de Homero e Hesíodo são questionados pelos primeiros filósofos. A tradição mítica entra em crise e a filosofia passa a absorver questões como a origem do universo, o bem universal, o que é o ser, a organização política de uma cidade etc. É provavelmente neste momento, por volta da metade do século V a.C. em Atenas, que podemos situar o nascimento de uma preocupação com as condições em que se dá o conhecimento.
Mas por que o conhecimento é um tema exclusivamente filosófico? Antes do advento da filosofia não existe o problema? O helenista Jean-Pierre Vernant diz que a preocupação com o conhecimento puro, isto é, o saber que não carrega traços religiosos ou míticos, é uma característica dos primeiros filósofos. Homens como Tales, Anaximandro, Anaxímenes apresentam em suas investigações uma teoria, uma visão geral do mundo que explica racionalmente a estrutura física e espiritual desse mundo. Vernant afirma ainda que esses primeiros pensadores tinham plena consciência de que produziam um conhecimento radicalmente novo e, em muitos pontos, oposto à tradição religiosa. (VERNANT, 1973, p. 156-8)

Entre a Teoria e Prática
Diversos testemunhos mostram, na verdade, que eles [os gregos] puderam, bem cedo, abordar certos problemas técnicos ao nível da teoria, utilizando para isso os conhecimentos científicos da época. Desde o século VI que uma obra como o canal subterrâneo construído em Samos pelo arkhitéktón [arquiteto] Eupalino de Mégara pressupõe o emprego de processos já difíceis de triangulação. Há inúmeras razões para acreditar-se que não estamos diante de um caso isolado. O termo arkhitéktón, em Platão e Aristóteles, designa, por oposição ao operário ou ao artesão que executa o trabalho, o profissional que dirige os trabalhos do alto: sua atividade é de ordem intelectual, essencialmente matemática. Possuindo os elementos de um saber teórico, ele pode transmití-lo por um ensinamento de caráter racional, muito diferente da aprendizagem prática. (...) o arkhitéktón, no âmbito de sua atividade – arquitetura e urbanismo, construção de navios, engenhos de guerra, decorações e maquinarias teatrais – apóia-se em uma techne [arte, técnica] que se apresenta sob a forma de uma teoria mais ou menos siste¬mática. (VERNANT, 1973, p. 247)

O Conhecimento como Justificação Teórica
Ao falar do conhecimento usamos bastante o termo “problema”. Essa expressão vem do grego e significa literalmente “obstáculo”, “aquilo que está lançado”, o que é “saliente”. Para que o estudo de qualquer tema seja profundo, é sempre útil saber de antemão a problemática que se quer investigar. Isso também vale para a teoria do conhecimento. De acordo com Franklin Leopoldo e Silva (1985), os principais problemas que a teoria do conhecimento deve investigar são: 
1) as fontes primeiras de todo conhecimento; 
2) os processos que fazem com que os dados se transformem em juízos ou afirmações acerca de algo; 
3) a forma adequada de descrever a atividade pensante do sujeito frente ao objeto do conhecimento; 
4) O âmbito do que pode ser conhecido segundo as regras de verdade
 
As Fontes do Conhecimento 
Um dos temas tratados na teoria do conhecimento – e que se enquadra no problema das fontes do conhecimento – é a relação entre sensação, crença e conhecimento. O professor Newton Carneiro da Costa, especialista em lógica e teoria do conhecimento científico, defende, por exemplo, que todo conhecimento é crença, mas nem toda crença é conhecimento. Explica Da Costa:
O Sr. X pode acreditar (crer) que há vida em Netuno e ser um fato que em tal planeta aja vida, inclusive análoga a da Terra. Todavia, ainda não se tem conhecimento em acepção estrita, a menos que X possua justificação para sua crença.” (DA COSTA, 1997, p. 22)
O que se passa neste caso é que pode haver uma coincidência entre a crença do Sr. X e a realidade da existência objetiva de vida em Netuno. Mas o Sr. X não sabe em que condições há vida lá, que procedimentos foram usados para se constatar isso etc. Da Costa afirma que, pelo menos em ciência – mas, defendemos nós, igualmente em teoria do conhecimento – para se ter conhecimento é preciso ter uma crença justificada. Isso quer dizer que, se o tópico é da área de matemática pura, você precisará demonstrar aquele ponto que diz conhecer, se for um caso de física ou economia, terá que mostrar conhecimento das leis que governam tais áreas, ter acesso aos testes críticos, etc.
O que foi dito acima nos leva a constatar que uma pessoa tem basicamente três níveis de consciência, cada qual correspondendo a uma perspectiva que dá corpo a sua visão do mundo. Esses três níveis são: sensação, crença e conhecimento. A sensação é o nível em que nosso contato com o mundo é puramente físico ou emocional. A crença, por seu lado, é um estado mental, uma representação de um determinado estado de coisas. Segundo Moser (2004), a crença fornece ao indivíduo uma espécie de esquema do mundo. Nesse sentido, ela mantém uma conexão importante com o conhecimento, como veremos. Por fim, o conhecimento propriamente dito é a capacidade de justificarmos e validarmos nossas sentenças sobre as coisas.

Platão e Protágoras: Racionalismo e Relativismo
O que de fato diferencia esses níveis de conhecimento de que falamos, ou seja, qual a natureza específica da sensação, da crença e do conhecimento? Vejamos o que Platão e Protágoras escreveram a respeito. 
Platão é um filósofo nascido em Atenas do período clássico. Sua obra trata de política, moral, ciência e arte. Platão descrevia suas teses em textos escritos na forma de diálogos temáticos, isto é, cada diálogo tratava de um tema específico como Justiça, Conhecimento, Coragem etc.
Já Protágoras é um “sofista” nascido alguns anos antes de Platão. Um sofista é um sujeito tido como conhecedor de técnicas de aprendizado de oratória, matemática, geometria etc. É alguém que tem uma “especial perícia ou conhecimento para comunicar. Sua Sophia [sabedoria] é prática, quer nos campos da conduta e política, quer nas artes técnicas” (GUTHRIE, 1995, p. 34). A relação entre as posições de Platão e Protágoras acerca do conhecimento é, para dizer o mínimo, tensa.
Protágoras é considerado, do ponto de vista do conhecimento, um relativista. Ele defendia, por exemplo, que para cada tema havia um argumento a favor e outro contra. Dizia que podia fazer do “argumento mais fraco o mais forte”. No Teeteto de Platão ele aparece defendendo sua tese mais famosa, a ideia de que “(...)o homem é a medida de todas as coisas, das que são e das que não são. (Teeteto, 152c).
No Teeteto Platão faz um exame cuidadoso dessa doutrina, destacando que não se trata apenas de uma frase de efeito criada pelo sofista para agradar às multidões, estratégia típica nas atividades de Protágoras. Protágoras realmente defendeu a tese de que em assuntos como política, moral, religião, saúde, o indivíduo é a medida, isto é, não existe nada além daquilo que cada um percebe em seu campo de visão, audição etc. Essa filosofia gera um relativismo, uma perspectiva que leva em conta apenas aquilo que a sensibilidade de uma pessoa capta. Mas por quê? Que tem a ver sensibilidade com a ideia de que o homem individual é medido de todas as coisas?
Em primeiro lugar, é preciso considerar que Protágoras lecionava, segundo Platão, duas qualidades diferentes de ensino. Um ensino mais popular e acessível era dado à multidão que, ocasionalmente, pagava e frequentava seus cursos. Um outro tipo de lição, bem mais detalhada, era ministrada aos chamados “iniciados”, discípulos assíduos que recebiam as explicações pormenorizadas das teses de Protágoras.
Em segundo lugar, sempre de acordo com Platão no Teeteto, o sofista utilizava em suas lições aos iniciados o núcleo principal da filosofia do pré-socrático Heráclito para dar um fundamento à tese do homem-medida. De Heráclito Protágoras emprestava a ideia de que “tudo está em movimento”. Com esse pensamento, Protágoras negava que alguma coisa pudesse manter suas qualidades essenciais de forma perene. Por exemplo, com a ideia de que tudo está sob efeito de um fluxo constante justifica-se porque não há razão para acreditar em ideias gerais acerca da humanidade, do destino humano, de conhecimento etc. Protágoras chega a dizer que o conhecimento de medicina, mesmo que se defina por um conjunto de técnicas sobre o bem-estar do corpo, não é um caso de verdade absoluta. Os preceitos médicos não fazem mais do que substituir uma sensação ruim, como a febre, por uma sensação boa, a saúde. Estamos aqui no plano da sensação e, sobretudo, bem de acordo com a doutrina de que cada um é juiz solitário de tudo que é verdadeiro e falso.
Em suma: é porque tudo se move que o homem, ser sensível capaz de reter momentaneamente alguns traços das coisas, é a medida de tudo. Protágoras pode ser considerado, desse modo, o primeiro relativista da história.
Platão escreveu que os homens estão ligados desde o nascimento às sensações primitivas. Por conta disso, vivem num estado mental permeado por “imagens” dos objetos existentes. Para Platão poucos alcançam o verdadeiro conhecimento. Platão crê que é definitivo o apego da maioria das pessoas a realidades transitórias, mas não deixa de indicar, repetidas vezes e em vários textos, o caminho que leva ao verdadeiro conhecimento. Esse caminho é diferente daquele indicado por Protágoras em muitos pontos essenciais, como veremos.
A principal obra de Platão é um diálogo chamado República. É uma síntese de seu pensamento. Não por acaso é o texto mais divulgado de Platão. Nessa obra Platão desenvolve uma série de teses sobre conhecimento. Mas o autor escreveu uma outra obra que tratava exclusivamente da questão do conhecimento. Trata-se do diálogo Teeteto, já citado. Confeccionado após a República, provavelmente num momento onde Platão já não estava contente com os resultados expostos em sua obra anterior, é nessa obra que Platão desafia de forma definitiva o relativismo de Protágoras.
Para dar cabo dessa tarefa, Platão desenvolve três alternativas para a definição de conhecimento: 
1) conhecimento é sensação; 2) crença-opinião verdadeira é conhecimento e 3) opinião verdadeira justificada com a razão é conhecimento. A primeira alternativa é a opinião de Protágoras. Na passagem 186c do Teeteto Platão é categórico ao rebatê-la:
Naquelas impressões (sensações), por conseguinte, não é que reside o conhecimento, mas no raciocínio a seu respeito; é o único caminho, ao que parece, para atingir a essência e a verdade; de outra forma é impossível.
Ao dizer que o raciocínio sobre as impressões é o que caracteriza o conhecimento, Platão condena a tese de Protágoras à inconsistência epistemológica, isto é, nada na tese permite retratar o processo de conhecimento. Um pouco antes deste trecho, o diálogo apresenta a noção de alma como responsável pela “síntese” da sensação. Platão insiste ali que o que organiza em nós o fluxo de dados captados pelos sentidos é o que hoje chamamos mente ou espírito. Platão avalia que a sensação não pode ser responsável por um conhecimento porque ela não opera no nível do “por que”, mas no nível do “através de que” (Diès, 1972, p. 458). Em outras palavras, Platão está dizendo que a sensibilidade não é capaz de fazer um juízo da forma “esta flor é bela”. Mesmo que meus órgãos sejam tocados pela beleza da flor, a expressão “é bela”, e seu sentido, é uma operação realizada pelo espírito. Platão rejeita também a ideia de que opinião ou crença, ainda que verdadeira, possam ser conhecimento. No diálogo Mênon (98a) Platão escreve:
Pois também as opiniões que são verdadeiras, por tanto tempo quanto permaneçam, são uma bela coisa e produzem todos os bens. Só que não se dispõem a ficar muito tempo, mas fogem da alma do homem, de modo que não são de muito valor, até que alguém as encadeie por um cálculo de causa. (...) e quando são encadeadas, em primeiro lugar, tornam-se ciências, em segundo lugar, estáveis. E é por isso que a ciência é de mais valor que a opinião correta, e é pelo encadeamento que a ciência difere da opinião correta.
Esse “encadeamento” de que fala o filosofo é o raciocínio que cada um é capaz de fazer sobre os elementos que compõem sua opinião. Trata-se, como disse Da Costa na passagem já citada no texto, de ter uma justificação para sua crença. Em Platão essa justificação é o conhecimento das causas. Aristóteles desenvolveu posteriormente a ideia de que, se uma pessoa tem conhecimento, ela deve dominar necessariamente o saber da causalidade dos eventos e coisas. Ciência ou Conhecimento, tanto para Aristóteles como para Platão, é o domínio das conexões causais verificadas na realidade.
No que toca à crença, para Platão trata-se de um tipo de fluxo de ideias que se caracteriza por uma tendência natural à mudança. Nossas crenças podem até ser verdadeiras ou plausíveis, como, por exemplo, no caso de dizermos que “o egoísmo é uma propriedade natural do ser humano”. Mas até que saibamos expor a causa, dizer o porquê, ou enunciar a função que a natureza reservou a esse sentimento, não estamos autorizados a emitir aquele juízo com pretensão de conhecimento. Se alguém lançar contra essa ideia uma série de argumentos, podemos modificar nossa posição sobre o problema, sem, no entanto, conhecer de fato a questão. Platão dizia que a estrutura de nossas opiniões segue mais ou menos o esquema de nossas sensações. Esse esquema é o seguinte: 
No caso da visão, ter uma experiência sensória é ter um olho que recebe, com ajuda da luz, aspectos dos objetos. À medida que o objeto se movimenta, nossa visão também se modifica. Se estiver mais próximo, vejo com mais nitidez o tom de cinza. Se me afastar demais, não consigo distinguir a cor. Para Platão, toda sensação, seja auditiva, gustativa ou tátil, é um caso de aproximação entre um órgão sensível (olho, ouvido etc.) e um objeto. A crença/opinião, para Platão, tem essa estrutura porque as informações que adquirimos mediante opinião se mantêm apenas até que outra sensação, mais forte ou mais adequada, substitua a sensação anterior que nos fazia emitir aquela opinião. Desse modo, toda informação que administramos a título de opinião está sujeita a mudança, da mesma forma que nossa visão dos objetos se modifica pelo deslocamento de posição, seja do nosso olho ou do objeto.
Não é o que ocorre quando temos conhecimento. De modo similar à crença, o conhecimento retém um feixe de aspectos dos objetos. Mas o que o distingue é o fato de focalizar os traços permanentes do objeto. Desse modo, a grande diferença, para Platão, entre opinião e conhecimento é que a primeira fornece ao sujeito um quadro provisório do mundo, ao passo que o conhecimento é o estudo daquilo que jamais muda.
No Teeteto Platão diz que é preciso que a mente se ponha a raciocinar sobre os dados para que haja a formulação de um conhecimento. O raciocínio é uma atividade do pensamento, para Platão a mais nobre, porque é por meio dele que conseguimos atingir o verdadeiro núcleo de cada realidade.
 
Filosofia e História 
A psicologia estuda o comportamento, a biologia os organismos vivos, a física os fenômenos mais fundamentais da natureza, a história estuda o passado e filosofia estuda o pensamento. São todos exemplos de que o conhecimento possui campos distintos. No entanto, uma pergunta se impõe: como cada uma dessas ciências vê a metodologia de seu trabalho, isto é, que categorias de análise, instrumentos e conceitos são fundamentais para que o saber seja constituído em cada campo de conhecimento?
No caso específico da história a filosofia recentemente se ocupou da reflexão sobre as relações entre as ideias e a história. O tema recebeu o nome de “filosofia da história” e foi cunhado pelo filósofo Voltaire. Trata-se de investigar a relação entre o trabalho técnico do historiador – investigar documentos, reconstituir os traços econômicos, político e culturais de uma época etc. – e o modo como esse historiador interpreta os acontecimentos. Mas é também uma questão de ir além da descrição dos fatos históricos. A filosofia da história desdobra o significado dos fatos, as conexões entre as ideias e o contexto político, econômico e cultural de uma época ou de um povo. Do ponto de vista da filosofa, o historiador não é apenas um coletor de informações. Ele reflete sobre essas informações, reconstrói com sua inteligência aspectos que as fontes sozinhas não permitem inferir e o faz com enorme carga crítica. Há reflexões sobre a história em Hegel e Marx.
A filosofia da história é a preocupação dos trabalhos do historiador e filósofo Collingwood [1889-1943]. Este autor entendia que, ao estudar a história, não estamos simplesmente lidando com fatos brutos do passado. Ao estudar uma batalha, como a guerra travada entre gregos e troianos, o historiador não deve imaginar que poderá retratar com realismo o que de fato ocorreu. O retrato fiel da batalha será sempre objeto de ficção na mente do historiador. O maior ou menor grau de exatidão dependerá da época e dos registros disponíveis para pesquisa.
Collingwood (A Ideia de História, 1989) lembra que a história como disciplina isolada é um fenômeno recente. Na idade média os fatos históricos eram curiosidades que animavam os estudos de teologia. Do século XVI até o XIX houve um enorme desenvolvimento da ciência natural. A filosofia se ocupou bastante da relação entre o espírito humano e o mundo que o cerca. Mas, apesar de pensar historicamente, a filosofia não chegou a levantar problemas concretos sobre o estudo do passado. A história permanecia um tópico de teoria do conhecimento. É somente no século XVIII que se começa a pensar a história de modo crítico, momento em que a disciplina ganha um corpo de problemas próprio.
É verdade que existiu Heródoto, hoje considerado o pai da história, que empregou a palavra “investigação” para definir seu relato sobre a guerra entre gregos e persas [490-479 a.C.]. Também é certo que existiu Tucídides, outro historiador grego que se ocupou do relato dos conflitos entre Atenas e Esparta. Mas estes e outros são fenômenos isolados e não serviram para criar uma área específica de saber que estuda os gestos humanos do passado.
Collingwood define a história como investigação e afirma que seu objeto específico é o conjunto de gestos humanos que no passado interferiram na história. Os instrumentos do historiador são os documentos que servem de fonte para que se formule perguntas, se descreva os acontecimentos históricos e se recrie, ainda que mentalmente, os cenários históricos. Quanto à análise dos conceitos e valores que acompanham os gestos humanos do passado, Collingwood diz que essa é uma tarefa para a filosofia da história.
Uma pergunta provocante que a filosofia faz ao historiador é a seguinte: será que nos estudos históricos do passado não há sempre um componente de mito e imaginação? Deixaremos essa questão em aberto para que o leitor mesmo responda. Platão dizia que a diferença entre mito e discurso é que o primeiro se serve de imagens para captar a realidade, ao passo que o segundo busca apoio nos fatos, no tempo e nos documentos, enfim, numa racionalidade.
 
Filosofia e Matemática
Se hoje o conceito de “ângulo”, a “teoria das proporções”, a “raiz quadrada”, os números não-inteiros ou negativos etc., são coisas comuns nas aulas de matemática, isso se deve ao fato de os gregos terem dado grande impulso na sistematização dessas fórmulas.
Entre os gregos, a filosofia começa com uma tomada de consciência sobre os limites da experiência na obtenção do conhecimento. Essa também é a preocupação que dá corpo ao desenvolvimento da matemática grega. Em outras culturas o processo de construção do conhecimento matemático deu-se de maneira diferente. Sabemos hoje que entre os babilônios e egípcios, por volta de 3.500 a.C. já existia um primitivo sistema de escrita numérica. Alguns historiadores consideram, inclusive, a África e não a Grécia o berço da matemática, devido ao material encontrado que sugere que há mais de dezenove mil anos já se pensava matematicamente. Porém, é na Grécia que se verifica um surpreendente nível de abstração de problemas matemáticos, culminando na obra do matemático Euclides, que viveu por volta do ano 300 a.C. Os “Elementos” de Euclides comportam 465 proposições em 13 livros que tratam de geometria, teoria dos números, irracionais e geometria do espaço.
Como destaca o historiador da matemática Árpád Szabó, a matemática pré-helênica não chegou a desenvolver conceitos como “proporção”, “demonstração”, “dedução”, “definição”, “postulado”, “axioma”. Todos esses termos aparecem na obra de Euclides (Szabó, 1977, p. 201). Ainda segundo Szabó, o nível de formalização de problemas matemáticos que encontramos nos Elementos de Euclides recebeu importante subsídio das discussões filosóficas da Grécia clássica, principalmente com Platão e os matemáticos que faziam parte da academia.
Platão é sempre lembrado por recomendar o estudo da matemática para o entendimento pleno da filosofia. É porque a matemática exercita a capacidade de abstração, sem a qual você não entende a filosofia. Na obra platônica encontramos inúmeras passagens onde problemas matemáticos são descritos como forma de exposição de argumentos. A passagem mais célebre é a do Mênon (82b-85e) onde Sócrates conduz um escravo na resolução de um problema de geometria. No diálogo Teeteto, sobre o qual já falamos, há o relato de outro problema que serve para mostrar que o personagem central, Teeteto, pode ser tão bom em filosofia como é em geometria. O tópico em questão é um exercício com números que não são exatos, como 1,4142 e 1,7320 (raízes aproximadas de 2 e 3, respectivamente). Hoje essas quantidades são triviais. Mas entre os gregos a descoberta desse tipo de medida causou bastante perplexidade. Os números que não possuíam raízes exatas eram chamados “números irracionais”.
É importante destacar também que na Grécia clássica a noção de número tem um sentido bem diferente da noção de número na matemática moderna. Para os gregos “dois” é a soma de duas unidades, ou duas quantidades “discretas”, “três” é o triplo da unidade etc. (Cf. Fowler, The Mathematics of Plato’s Academy, 1987) A noção de “número” indica aquilo que é capaz de possuir partes. Isso significa que a unidade (1) não é um número. A unidade é o nome que se dá para cada parte do número quando esta é identificada até o seu limite, isto é, quando não pode mais ser dividida. Esta noção é definida como aquilo que não tem partes porque, se tiver partes, já não será mais unidade, mas dois, três etc. Trata-se de uma concepção muito diferente da cotidiana, que vê os números como abstrações e não faz mais a conexão com as coisas que eles representam.
Além disso, os gregos representavam os números com figuras geométricas. O número 3 representava a figura do triângulo porque com três pontos num plano formamos uma figura triangular. O número 4 o quadrado porque com quatro pontos formamos um quadrado e assim sucessivamente.
Se você encontrar pela frente obras filosóficas como a de Descartes, Spinoza ou Platão, e se deparar com afirmações de que a realidade é mais bem apreendida por meio da geometria ou da matemática, pense nisto: antes de ser um símbolo mental cujas sequências e razões são sistematizadas nos livros de matemática, os números indicam coisas reais existentes no mundo. De modo que se pode olhar para torrões de terra e pensar em cubos, para a água e pensar em bolhas em forma de círculos, para as folhas das árvores e pensar em triângulos ou cones. Era mais ou menos isso que faziam os gregos quando raciocinavam matematicamente sobre a natureza. 
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