7. Filosofia e Método

Na vida diária realizamos tantas tarefas e, muitas vezes, não percebemos que uma parcela significativa delas é feita com alguma metodologia. Considere, a título de exemplo, as atividades que o ser humano realiza diariamente: o ato de vestir-se, tomar banho, preparar a alimentação, amarrar o cadarço do sapato etc. Esses procedimentos domésticos exigem método. Mas o que é método? Será que o trecho da música de Chico Buarque se refere a uma pessoa metódica? Que diferença há na ação de quem “segue um método” e de quem “faz tudo sempre igual”?
 
As Críticas de Aristóteles a Platão 
A teoria do conhecimento se caracteriza por uma preocupação com a busca de princípios gerais que permitam formular crenças verdadeiras sobre a realidade. Essa ideia está presente na obra de Platão e é, em larga medida, o que caracteriza também o pensamento de Aristóteles. É com Aristóteles que a filosofia ganha uma consciência mais definida acerca do método a ser adotado quando o assunto é o conhecimento.
Aristóteles contestou Platão porque via problemas em alguns pontos da explicação platônica do conhecimento. Platão tinha chegado numa tese importante: para haver conhecimento da realidade, é preciso encontrar um caminho que dê acesso a ideias que sejam imutáveis, que não sofram transformações decorrentes da interpretação ou do capricho. Aristóteles concorda com isso, mas dirige uma crítica a Platão: para garantir a certeza e validade do conhecimento não é necessário postular uma teoria que duplique o real, isto é, que crie duas dimensões na realidade: o sensível e o inteligível, como fez Platão.
Para entendermos bem a crítica de Aristóteles é necessário demorar-se um pouco mais na teoria platônica que Aristóteles ataca: a chamada “teoria das Formas.” Com efeito, em obras como República e Fédon, Platão defende que o conhecimento só é alcançado quando atingimos a “ideia” ou “conceito” do objeto. Platão utilizava, prioritariamente, o termo “Forma” para referir-se a essa ideia. Por Forma Platão entende um núcleo de características de um determinado objeto ou realidade que mantém seus componentes independentemente dos exemplares destes objetos encontrados no mundo ou na linguagem.
Um exemplo que nos ajuda a entender isso é pensar naquilo que você compreende quando houve a palavra Justiça. Se relacionarmos o que as pessoas entendem por justiça, teremos uma gama variada de definições, muitas contraditórias entre si. Além disso, a própria aplicação do conceito à realidade, no sentido de esforçar-se por ser justo, não é condição suficiente para que saibamos exatamente o que é justiça. Suponhamos que você diz que agir com justiça é devolver a alguém o que lhe pertence (cf. República 331e-332c), e dá como exemplo a devolução, ao dono, de uma arma que você encontrou. Alguém pode protestar que teria sido mais racional e justo evitar a devolução, pois a arma poderia ser usada para ferir alguém. É isso que preocupava Platão. Muitas noções que temos sobre justiça e outros conceitos importantes esfacelam-se diante de certas circunstâncias. Platão se perguntava se não haveria um meio de evitar essa ambiguidade em que diferentes situações exigirão de nós diferentes noções disto ou daquilo. Ele estava consciente de que se não houvesse um modo de chegar a uma visão unitária da justiça, jamais haveria possibilidade de entendermos a real essência do conceito. Pior que isso, os que cometem crimes ou violência teriam sempre à mão um argumento para justificar suas ações.

A importância vital das Formas vai muito além da República. Na concepção platônica da filosofia, todas as inquirições em termos abstratos, que afinal se destinam a informar a nossa visão do mundo não-abstrato, necessitam de um objeto de estudo; as Formas oferecem algo de lúcido e real a examinar, ao passo que o mundo físico, devido a sua ambigüidade, imperfeição e corruptibilidade, é aparentemente insusceptível de estudo. Isto é, compreender a justiça das leis do nosso mundo ou a beleza das pessoas pressupõe um claro conhecimento especulativo da justiça e da beleza “em si mesmas”. A questão continua a ser a compreensão deste mundo. Mas o que é a justiça de uma lei e a de uma pessoa? Que estudamos realmente, quando estudamos uma lei justa? Platão apela para as Formas: a “participação” da Forma da Justiça, numa pessoa ou numa lei, torna justo quanto exista nessa pessoa, nessa lei. Por outras palavras, tudo o que é justo, numa pessoa ou numa lei, reflete as propriedades da Forma da Justiça, tal como a massa de uma mesa e as propriedades dessa massa são realmente a massa dos átomos constituintes. (PAPPAS, 1996)
Daí porque Platão defendia que, para um conjunto específico de coisas como Justiça, Beleza, Conhecimento, Coragem, Igualdade etc., deveria existir uma única Forma que desse sustentação ao pensamento sobre essas coisas. Desse modo, ao aplicar o conceito de Justiça a determinada realidade, no entendimento de Platão, estaríamos aplicando o conhecimento do objeto aos casos particulares. Dito de outra forma: não é porque uma cidade foi devastada que a população local deve se unir e reconstruí-la novamente. Antes mesmo da devastação a população deve saber que o que define a justiça é cada um fazer a sua parte (cf. República, livro IV) com vistas ao bem comum. Desse modo, quando a cidade for arruinada não será necessário nenhum esforço de conscientização para que uns ajudem os outros, uma vez que aquela população já sabia agir assim bem antes do acontecimento trágico.
Isto posto, voltemos às críticas de Aristóteles. Elas estão, sobretudo, no capítulo 9 da Metafísica. Aristóteles critica vários pontos da teoria. Vamos nos deter no núcleo comum de suas análises. A preocupação de Aristóteles é que a teoria das Formas de Platão conduz a um tipo bem particular de problema: ela torna o pensamento de um objeto independente deste objeto, ou seja, faz pairar acima dos objetos conceitos abstratos. Isso não é necessário, pensa Aristóteles. Ele concorda, por exemplo, que a observação e comparação de diferentes tipos de cavalo levam a um grupo de aspectos que definem o “conceito de cavalo”. Isso só pode ser feito pelo pensamento. Mas Aristóteles não concorda quando Platão imagina que existe algo abstrato e formal como “a cavalidade”, independentemente da existência de cavalos particulares. Para Aristóteles, chegamos ao conceito de cavalo mediante estudo dos exemplares existentes, chegamos ao conceito de humanidade me diante estudo de homens concretos e assim por diante. Aristóteles se pergunta: por que postular propriedades essenciais de cada objeto que existam separadamente quando sabemos que conceitos, termos, palavras, frases são produto do próprio pensamento e só existem enquanto pensamento? Para Aristóteles um homem é mais real que a humanidade, e é por meio do primeiro que chegamos ao conceito do segundo.
do particular ao geral: 1º movimento do entendimento

Numa obra chamada “Física” Aristóteles esclarece o passo do conhecimento:
“o percurso naturalmente vai desde o
mais cognoscível e mais claro para nós em direção ao mais claro e mais cognoscível por natureza...” 
(Física I,184a16-17)

Não é difícil entender o que Aristóteles está dizendo. Se você é um especialista em teoria da relatividade e foi chamado para uma palestra a um público que não entende coisa alguma de física, será melhor iniciar sua fala por alguns exemplos triviais do cotidiano para cativar o público e só então arriscar conceitos mais técnicos ou fórmulas. Em outras palavras, você fará um caminho que vai do “particular” (o que faz parte da experiência do público) ao “geral” (a visão de conjunto, mais técnica e elaborada, sobre a qual você vai falar). A marcha do nosso entendimento vai do simples ao complexo. Isso significa que compreendemos melhor um assunto quando podemos fazer a passagem daquilo que conhecemos para aquilo que desconhecemos. Observe como os grandes oradores começam seus discursos por analogias ou casos que a plateia logo se identifica.
No texto da “Física” Aristóteles dá o exemplo da criança para ilustrar sua tese: inicialmente ela chama qualquer homem ou mulher de pai e mãe. Só mais tarde aprenderá a identificar quem é pai e mãe, e com o tempo formará um conceito de paternidade e maternidade. Há aqui um curso do entendimento que vai do particular ao universal, fazendo com que o conhecimento se amplie. Aristóteles, que era considerado um professor brilhante, já dominava em seu tempo noções de psicologia e pedagogia para saber que ser humano algum adquire conhecimento se não puder partir daquilo que já sabe.
 
do universal ao particular: 2º movimento do entendimento
 
Atenção: a regra anterior é absoluta no que toca ao aprendizado, mas ela não diz tudo. O texto da Física também indica que o “claro” para nós é, frequentemente, um dado muito geral e simplista. O conhecimento só é efetivo quando puder descer às minúcias. É isso que Aristóteles quer dizer com “(...) mais claro e mais cognoscível para nós em direção ao mais claro e mais cognoscível por natureza”. A marcha é do que nós sabemos em direção ao que as coisas são de fato. Procure não fazer confusão sobre esse ponto. Essa é a razão pela qual os melhores alunos na escola são aqueles que desenvolvem o hábito de acompanhar os pontos principais do conteúdo. A regra de ouro é: compreenda os conceitos principais, mais gerais, só então se dedique ao estudo dos pontos particulares. Muitas vezes esses alunos são tomados por “inteligentes”, mas não é nada disso. Adquirir conhecimento é uma questão de saber como procede o aprendizado. Muitos que tiram os primeiros lugares nos vestibulares não dedicam mais do que 4 horas de estudo por dia no período de preparação, o que escandaliza os demais que no mesmo período chegam a estudar 10 horas por dia e não alcançam os mesmos resultados.
 
A Lógica Aristotélica 
Os limites deste texto não permitem expor de forma detalhada muitos pontos importantes da visão aristotélica do conhecimento. Mas não poderíamos deixar de dizer uma palavrinha sobre a lógica aristotélica. Antes de Aristóteles não houve nenhum filósofo que se preocupasse com a formalização de regras que pudessem garantir a validade de raciocínios e argumentos. Este é propriamente o objeto da lógica. Como destaca Zingano (2002), para Aristóteles era mais desafiante encontrar uma forma de organizar a massa de dados do conhecimento do que propriamente reuni-los. Nesse sentido, Aristóteles percebeu que se fazia necessária uma classificação dos conhecimentos: ele dividiu as ciências em teóricas (matemática, física e metafísica), práticas (ética e política) e produtivas (agricultura, metalurgia, culinária, pintura, engenharia etc.). Mas o filósofo também concluiu que é fundamental estudar o procedimento correto que deve orientar uma investigação em qualquer destas áreas. Foi então que nasceu a lógica, conjunto de regras formais que servem para ensinar a maneira adequada de se produzir argumentos, raciocínios, proposições, frases e juízos.
Aristóteles em vida não pôde organizar sua obra. Essa tarefa ficou a cargo de seus alunos. Os escritos que tratavam do raciocínio foram reunidos num único volume que recebeu o título de Organon, literalmente “instrumento”. O Organon é um conjunto de diferentes tratados (exposição sistemática de um tema): Categorias, Tópicos, Dos Argumentos Sofísticos, Primeiros Analíticos, Segundos Analíticos e Da Interpretação.
Segundo o historiador da filosofia Giovanni Reale, Aristóteles sabia que estava sendo pioneiro quando começou a estudar uma forma de argumentação chamada silogismo. Por meio das análises que o filósofo fazia de textos de sofistas, de Sócrates e do pensamento de Platão, a lógica aristotélica: 
 
(...)assinala o momento no qual o logos filosófico, depois de ter amadurecido completamente através da estruturação de todos os problemas, como vimos, torna-se capaz de pôr-se a si mesmo e ao próprio modo de proceder como problema e assim, depois de ter aprendido a raciocinar, chega a estabelecer o que é a própria razão, ou seja, como se raciocina, quando e sobre o que é possível raciocinar. (REALE, 1994)
Aristóteles chegou num ponto em que não se tratava mais de desenvolver conteúdos filosóficos, mas de examinar a forma como a razão procede. Durante séculos a humanidade dependeu dos escritos de Aristóteles para estudar áreas tão distintas como a física e a metafísica. Ao ensinar os princípios básicos do pensamento, Aristóteles forneceu à humanidade regras de argumentação que permanecem válidas ainda hoje, sobretudo em domínios como a ética e a política.

Descartes e as Regras para Bem Conduzir a Razão
Uma das obras mais fundamentais da filosofia chama-se Discurso do Método e traz o seguinte subtítulo: “para bem conduzir sua razão e buscar a verdade nas ciências”. Será que não é pretensão demais para um texto escrito de forma autobiográfica? A trajetória do texto e o poder que exerceu sobre a tradição posterior revelam que não. O Discurso do Método é uma obra destinada, inicialmente, a servir de prefácio a três ensaios do filósofo e matemático Descartes: a Dióptrica, os Meteoros e a Geometria. Os dois primeiros só interessam hoje aos historiadores do pensamento cartesiano. Já o terceiro teve ampla divulgação entre os matemáticos, por razões que veremos mais tarde. Quanto ao Discurso, dividido em seis partes, apesar de Descartes dizer que seu propósito era apenas “(...) mostrar de que maneira ele se esforçou para bem conduzir sua razão.” (Descartes, 1962) frase que devemos atribuir à modéstia de Descartes, na verdade a obra expõe com clareza uma série de argumentos que permitem à filosofia fundamentar todo o edifício do saber.
Na segunda parte do Discurso, Descartes enumera quatro preceitos que devem conduzir a ciência. Acompanhemos o texto do filósofo:
 
O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir. (DESCARTES, 1962)
A primeira regra, também conhecida por “regra da evidência”, sintetiza um ponto muito importante na filosofia cartesiana. Descartes entende que a razão é uma capacidade que o homem possui para examinar os dados que os sentidos captam. Nisto ele não se distingue de filósofos anteriores. Mas, Descartes também pensa que a verdade e a certeza são condições sem as quais um homem não pode dizer que possui conhecimento. O filósofo foi educado em La Flèche, uma escola jesuíta que reunia o que havia de melhor em termos de Metafísica e Teologia do século XVII. Por meio dessa instrução, Descartes pôde exercitar-se durante anos em investigações metafísicas oriundas da Idade Média cujas teses e argumentos são, em sua maior parte, raciocínios prováveis. É contra esse tipo de procedimento que o método cartesiano ganha força. Para Descartes é importante rejeitar todos os juízos, demonstrações e dados que não possam ser tidos como verdadeiros e indubitáveis. Quando Descartes recomenda a certeza ele pensa naquela “luz natural” que cada homem possui, permitindo-lhe “intuir” (no sentido preciso de ver) a verdade de cada coisa. Veja como o filósofo delineia o método que orienta essa “visão mental”:
 
Todo método consiste inteiramente em ordenar e em agrupar os objetos nos quais deveremos concentrar o nosso poder mental se pretendermos descobrir alguma verdade. Seguiremos este método com exatidão se desse início reduzirmos as questões complicadas e obscuras, substituindo-as, passo a passo, por outras mais simples e depois, começando pela intuição das mais simples de todas, tentarmos conhecer todas as outras, através dos mesmos processos. (in: COTTINGHAM, 1989)
 
Você pode aplicar esse método no estudo de qualquer coisa, mas não deixe de atentar para o seguinte: a mensagem de Descartes é que sua razão segue um passo que vai do simples ao complexo por meio de graus de entendimento na matéria. Além disso, o trecho acima revela que o entendimento é uma espécie de visão mental, ou intuição, termo redefinido por Descartes e cujo significado não pode ser confundido com a tradição aristotélica. Em Descartes intuição é uma capacidade análoga à faculdade da visão. A clareza que o entendimento busca é uma capacidade de ver mentalmente as estruturas e qualidades dos corpos existentes, do mesmo modo que a projeção de mais luz sobre um corpo permite uma visão mais detalhada e precisa desse corpo.
Segundo Granger, o espírito do cartesianismo é o espírito da matemática:

Dividir a dificuldade, ir do simples ao complexo, efetuar enumerações completas, é o que observa rigorosamente o geômetra quando analisa um problema em suas incógnitas, estabelece e resolve suas equações. A originalidade de Descartes consiste em ter determinado, de forma por assim dizer canônica, essas regras de manipulação que somente se esboçam em seus contemporâneos na sua aplicação particular às grandezas, e de havêlas ao mesmo tempo oposto e substituído à Lógica da Escola, na qual vê apenas um instrumento de Retórica, inutilmente sofisticado. (DESCARTES, 1962)
 
Como se vê, o método cartesiano é uma projeção de princípios e regras que orientam o raciocínio matemático-geométrico. A terceira e quarta regras, respectivamente, apenas confirmam um procedimento de resolução de problemas na geometria: as linhas e as figuras simples estão contidas nas compostas etc. 
Vale ressaltar uma caracterização do conhecimento em Descartes que podemos chamar de “unitária”. Talvez sem o saber, Descartes retoma a opinião de Platão, para quem é possível identificar uma natureza comum do conhecimento, e se põe contra Aristóteles nesse ponto, o qual defendia a necessidade de distintas metodologias e perfis diferentes para cada ramo do saber.

Filosofia e Matemática 
Na escola você aprende que geometria significa, etimologicamente, “medir a terra”. É uma definição que está na origem das noções geométricas, quando egípcios e babilônios desenvolveram técnicas para medir a extensão de rios, terras e observar o movimento dos astros. Aos poucos essa noção rudimentar foi sendo aprimorada pelas matemáticas dedutivas gregas que chegaram, até Euclides, num nível de abstração bastante sofisticado. 
Mas é no século XVII, quando o matemático Fermat (1601-1665) e o próprio Descartes desenvolvem a álgebra, que a geometria dá um passo decisivo rumo àquilo que é hoje. Os historiadores da matemática divergem sobre o fato de Descartes e Fermat terem sido os reais pioneiros da chamada “geometria analítica”. O certo é que na obra Geometria, de 1637, na terceira parte, Descartes simplifica bastante o simbolismo usado pelas matemáticas anteriores. Como atesta Granger:
 
Para convencer-se disso, bastaria compará-lo com uma página da Álgebra de Clavius, onde nenhuma equação é completamente formulada em símbolos e onde signos cabalísticos representam as diversas potências da coisa, isto é, da incógnita. (DESCARTES,196)

Essa inovação deve-se à firmeza de Descartes em exigir uma clareza nas demonstrações matemáticas. A Geometria permitiu que Descartes estudasse a natureza do mundo físico pela ótica do pensamento matemático. O que Descartes mais apreciava na geometria é o poder que ela possui de rejeitar as “noções qualitativas indeterminadas em favor das de quantidades rigorosamente determinadas”. (COTTINGHAM, 1989)
 
A geometria analítica

Segundo o racionalismo de Descartes, o melhor caminho para a compreensão de um problema é a ordem e a clareza com que processamos nossas reflexões. Um problema sempre será mais bem compreendido se o dividirmos em uma série de pequenos problemas que serão analisados isoladamente do todo. Com intuito de ilustrar o alcance do método filosófico para o raciocínio e a busca da verdade, Descartes utilizou o terceiro apêndice de sua obra para a descrição de um tratado geométrico com os fundamentos daquilo que conhecemos hoje como geometria analítica.
Em essência, a geometria analítica pensada por Descartes seria uma tradução das operações algébricas em linguagem geométrica, e a essa nova forma de proceder segue uma enorme crença do autor no novo método como uma forma organizada e clara de resolver problemas de natureza geométrica.
Vejamos como a ideia central do método cartesiano está impregnada nos procedimentos de resolução do seguinte problema geométrico sem uso da fórmula de distância de ponto a reta: determinar a altura relativa ao vértice C do triângulo de vértices A(xa, ya), B(xb, yb) e C(xc, yc).
Dividiremos o problema em 5 problemas menores: 
Primeira etapa: determinar a equação da reta que passa pelos pontos A e B.
Segunda etapa: encontrar o coeficiente angular de uma reta perpendicular à reta que passa por A e B.
Terceira etapa: determinar a equação da reta que passa por C e tem o coeficiente angular igual ao encontrado na segunda etapa.
Quarta etapa: encontrar o ponto P de intersecção das retas da primeira e terceira etapas.
Quinta etapa: calcular a distância entre os pontos P e C (a altura do triângulo).
Sem dúvida, o projeto filosófico de Descartes trouxe inegáveis contribuições para o desenvolvimento da ciência de modo geral e da matemática em particular, contudo vale ressaltar que a fragmentação do conhecimento que dele decorre é um dos mais sérios problemas a serem enfrentados pelo homem contemporâneo.”
 (José Luiz Pastore Mello, in: Folha Online - 26/12/2000)

 
Quando Descartes nasceu, em 1596, a Europa passava por uma revolução importante nas ciências. Galileu já usava em 1610 o telescópio para detectar as fases de Vênus e publicava, no mesmo ano, uma obra chamada O mensageiro das Estrelas na qual dava conta da descoberta de quatro satélites ao redor de Júpiter. Esse dado, conjugado com muitos outros, chocava-se com a astronomia ptolomaica, segundo a qual todos os astros giravam em torno da Terra.
A Europa de Descartes ainda estava, no entanto, sob o efeito da longa tradição medieval que durante séculos valorizou os estudos teológicos em detrimento dos fenômenos naturais. O que teria levado a Igreja a retardar durante tanto tempo o avanço do conhecimento científico? Segundo o físico e historiador da ciência Marcelo Gleiser, para se entender esse fato é preciso entender o contexto político que se formou desde o século IV d.C. Devemos lembrar que a Igreja sempre foi uma guardiã, no sentido literal, de todo o saber que foi transmitido pelos antigos.
Mas esse zelo também impedia que teorias modernas ganhassem espaço e ameaçassem o conhecimento tradicional. O pensamento cartesiano não deixa de se chocar com esse panorama. Sua física, por exemplo, diz que os dois principais conceitos do universo são “matéria” e “movimento”. Não há para Descartes, como havia para os teólogos católicos e aristotélicos, algum tipo de finalidade no mundo, ou seja, um sentido e função prévios definidos por alguma inteligência divina.
A biologia cartesiana também entra em conflito com a descrição medieval do homem. Para Descartes o corpo humano tem a estrutura de uma máquina, funcionando em perfeita harmonia como um relógio. Para os medievais o que move o corpo é a alma, mas Descartes não aceita isso. Para ele o corpo deve ser explicado a partir de sua estrutura física: veias, sangue, circulação, cérebro, músculos, membros etc. É uma revolução que deixou perplexa sua época. O corpo em Descartes deixava de ser um receptáculo do espírito para se tornar um mecanismo complexo ao alcance da compreensão e estudo humanos.
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