1. Cultura e Identidade

Para início de conversa...
Quando alguém diz que os brasileiros têm pouca cultura, essa pessoa pode estar certa, mas pode estar falando uma grande asneira. Pode estar mal informada sobre formas de entender a cultura brasileira e pode estar demonstrando um tremendo preconceito. De todo modo, o certo é que clarear as formas de entender a cultura é um passo importante para nos percebermos como pessoas e para compreendermos a linguagem como nossa riqueza maior. 
Nesta primeira unidade, vamos discutir diversos entendimentos do termo cultura para, depois, vermos sua íntima relação com questões de linguagem e de língua. Vamos ver, também, traços da cultura brasileira, criadores de uma identidade nacional, entre os quais a língua aparece como fundamental.
Pronto para iniciar os estudos? Então, vamos lá!

Objetivos de aprendizagem
- Reconhecer a linguagem como elemento constituidor e constituinte da cultura.
- Identificar as relações entre língua e identidade.

Cultura: os muitos significados da palavra
Vamos começar a aula pensando em algumas questões.
•    Em sua opinião, o que é “cultura”? 
•    Quando se diz que alguém “tem muita cultura”, o que, em sua opinião, caracteriza essa pessoa?
É bem provável que, suas respostas para as perguntas acima, não apenas no seu entendimento como no de muita gente, “ter cultura” signifique ter muitas leituras, falar uma ou várias línguas estrangeiras, ter muitos conhecimentos sobre História, Geografia, sobre artes, sobre questões atuais de política, economia etc.
Mas será que é isso mesmo? 
Isso também não é cultura? 
Quando expandimos nosso olhar, percebemos que cultura é muito mais do que só as manifestações de algumas pessoas ou classes sociais. Ela envolve todas as manifestações da vida de um povo.
Os especialistas chamam de “cultura erudita” aquela que se cria ou se divulga nas universidades, instituições científicas e outros centros de estudos e se apoia basicamente em registros e documentos. É, por excelência, o conhecimento de prestígio. 
Para os mesmos estudiosos, ao lado dessa forma de cultura, existe a “cultura popular” – aquela cujo desenvolvimento dá-se à margem dos registros oficiais e longe das academias e sistemas de ensino. É transmitida, sobretudo, oralmente, ou por meio de registros bastante simples, basicamente artesanais, nos mais diferentes ambientes de convivência dos grupos envolvidos. Essa cultura evidencia-se nas artes (literatura, música, teatro, dança, escultura etc.), no tratamento de doenças, nas festas e comemorações. O folclore é um exemplo dessa cultura. Você conhece alguma lenda folclórica da sua região? Qual (is)? 
Se a cultura erudita pode ser mais valorizada, não é isso que ocorre com a cultura popular: Esta nem sempre chamou a atenção dos cientistas e é, com frequência, vítima de preconceitos e desconsiderada. No entanto, felizmente, ela sempre foi visitada pela sensibilidade dos grandes artistas. Poderíamos dizer que boa parte da melhor arte, no mundo inteiro, e em todos os tempos, tem sua origem na cultura popular. 
Para dar apenas exemplos brasileiros, pensemos em escritores, como Ariano Suassuna, cuja obra literária e teatral tem como fonte a cultura popular. Ou em Heitor Villa-Lobos, o grande compositor erudito brasileiro, que tem na cultura popular a inspiração de suas composições mais conhecidas. Ou em Antônio Nóbrega, cuja formação erudita não o impediu de ter sua arte marcada pelo folclore nordestino. 
Folclore é a tradição de um povo, os costumes, as crenças, as superstições, transmitidos de geração em geração. Assim, as lendas, os contos, as canções, as danças, os artesanatos, os jogos, a religiosidade, as brincadeiras e as cantigas infantis, os mitos, as adivinhações, as festas e as atividades culturais são manifestações do folclore de um povo. O folclore é a cultura popular que identifica um determinado grupo ou povo. Por isso, é parte essencial da cultura de uma nação.
Ariano Suassuna nasceu em 1927, em João Pessoa (PB), mas desde 1942 mora em Recife (PE), de onde exerce sua arte de romancista, poeta e dramaturgo e sua luta em favor da cultura popular nordestina. 
Há, por fim, a “cultura de massa”, típica do mundo industrializado em que vivemos. Ela se instala a partir do desenvolvimento de produtos e serviços em escalas industriais, criados e oferecidos para uma massa consumidora, gerando consumo que pode ocorrer, em alguns casos, simultaneamente a esse processo de produção. Esta cultura vale-se de um sistema de comunicação complexo e sofisticado, que pretende atingir um número cada vez maior de pessoas – o que se consegue, na maioria das vezes, pela homogeneização e nivelamento das mensagens, oferecidas a milhões de “participantes” anônimos, espalhados por grandes territórios. 
São veículos dessa modalidade de cultura, sobretudo, a televisão, o rádio, a imprensa, com ênfase, agora, na Internet.
As três modalidades de cultura – erudita, popular e de massa – estão muitas vezes entrelaçadas na nossa vida e, em alguma medida, toda a sociedade e seus cidadãos usufruem delas.
Talvez possamos dizer que a chamada cultura erudita é a mais distante da sociedade como um todo, uma vez que ela exige certo hábito de leitura, certa escolarização, ou pede espaços que não são frequentados facilmente pela população em geral. Essa cultura está nos museus, nos teatros, nas galerias, arquivos e bibliotecas, lugares que nem sempre têm acesso gratuito ou preços razoáveis. Outras vezes, parecem até espaços sagrados, não é?
E com relação à cultura de massa? Quem participa dela?
Vale lembrar que, praticamente, todas as camadas sociais participam dela – e nem poderia ser diferente. O nome – de massa, indica que muitas pessoas. 
Quanto a ser esta cultura irremediavelmente alienadora e destruidora da cultura mais original e mais típica de um povo, conviria pensarmos que, se esta forma de cultura não for exclusiva, seus “perigos” ficam bem diminuídos. 
Se conviverem, no cotidiano das pessoas, as várias modalidades de cultura, possivelmente os ganhos serão muitos.
Então, que tal uma pesquisa em um meio de comunicação de massa?
Tantas formas de entender e classificar cultura mostram que, como muitos outros fenômenos ou questões relacionadas ao Homem, este assunto está sempre em aberto.
Para nós, no entanto, é importante abordar a cultura na perspectiva da Antropologia, ciência que estuda o homem a partir da análise de seus diversos modos de viver. A Antropologia amplia o conceito de cultura para além das manifestações. Para ela, a cultura se manifesta a todo momento em nossas relações sociais e em nossa relação com o lugar onde vivemos.
Podemos, assim, ver traços culturais em várias situações e nas inúmeras relações que estabelecemos no nosso cotidiano. 
A cultura constitui-se a partir do desenvolvimento da fala e da capacidade do homem de criar instrumentos de atuação sobre a natureza. Nesses dois pontos, funda-se a característica humana da cultura. 
Foi o desenvolvimento da linguagem oral pelo homem que gerou potencialidades extraordinárias para a cultura. A primeira delas é a capacidade de o ser humano acumular conhecimento (de toda natureza), o que tem como consequência o avanço incessante da cultura.

As relações entre cultura, língua e identidade cultural
Um dos grandes interesses dos vários estudiosos com relação à cultura está no fato de os agrupamentos humanos apresentarem tantas e tão acentuadas diferenças entre si. Esta é mesmo uma questão crucial, que pressupõe uma outra: em que elementos comuns se baseia a cultura de cada agrupamento humano?
Dito de outra maneira: se, por exemplo, o Brasil é diferente culturalmente de outros países, o que nos identifica como país?
Podemos, sim, afirmar que o futebol e o carnaval são expressões culturais identificadoras do nosso país. É assim que, com certeza, muitos estrangeiros nos veem. Mas essa talvez seja apenas a parte mais visível, mais superficial do Brasil. Nenhum país caracteriza-se de forma tão simples, nenhuma sociedade é tão homogênea e não se mostra totalmente nas formas preferidas de lazer.
Na identificação de situações em que você e seus colegas sentem-se mais brasileiros e, agora, na produção desse texto, você deve ter percebido que apareceu um traço fundamental de brasilidade: a Língua Portuguesa. 
Nossa língua é, por excelência, um traço criador de nossa identidade. Por nascermos no Brasil e convivermos desde cedo com nossos familiares e grupo social, aprendemos e comunicamo-nos, usando o Português. E esta língua será o maior instrumento de expressão de nossa cultura. 
Pessoas, obras das mais variadas manifestações artísticas, paisagens, comidas, a língua: as mais diferentes expressões e atividades humanas podem despertar em nós um profundo sentimento de patrimônio compartilhado, de pertencimento ao mesmo território, enfim, um sentimento de identidade com o que é a nação brasileira.
Assim, um acarajé, um feijão tropeiro, uma toalha bordada à mão, um folheto de cordel, um sino repicando de manhãzinha, um maracatu, uma situação aparentemente simples acorda em nós a memória clara de um lugar a que pertencemos. A página de um jornal ou de um livro, a fala de um conterrâneo lembra-nos nossa pátria. 
E sendo a língua marca cultural de um povo, torna-se, então, o elemento agregador que nos identifica nesse grupo. A cultura, por sua vez, é responsável pela identidade entre as pessoas de uma comunidade, de um povo e de seu país.
Assim, todas as culturas são equivalentes e, como não existe sociedade nem pessoa sem cultura, nenhuma é melhor do que outra: cada uma tem as características fundamentais para o seu funcionamento. É a língua que une os elementos de uma dada sociedade ou país, tornando-se o principal traço de sua identidade.
Valorizar a cultura de qualquer povo e, consequentemente, sua língua materna, é um exercício de cidadania. Pense nisso!
 
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