2. Linguagem, cultura e variação linguística

Para início de conversa...
Você sabia que se criássemos juntos um bebê humano e um macaquinho, não veríamos muitas diferenças nas reações de cada um, nos primeiros contatos com o mundo e as pessoas?
O desenvolvimento da percepção, do modo de pegar os objetos, do jogo com os adultos é feito de forma similar. Até que, em dado momento, por volta dos dezoito meses, o progresso do bebê humano vai se tornar bem diferente. E você sabe por quê?
Porque o bebê vai começar a falar!
Leia um trecho interessante do livro do antropólogo Roque de Barros Laraia:  Acompanhando o desenvolvimento de uma criança humana e de uma criança chimpanzé até o primeiro ano de vida, não se nota muita diferença: ambas são capazes de aprender, mais ou menos, as mesmas coisas. Mas quando a criança começa a aprender a falar, coisa que o chimpanzé não consegue, a distância torna-se imensa. Através da comunicação oral, a criança vai recebendo informações sobre todo o conhecimento acumulado pela cultura em que vive. (...)
É interessante observar que não falta ao chimpanzé a mesma capacidade de observação e de invenção, faltando-lhe, porém, a possibilidade de comunicação. Assim sendo, cada observação realizada por um indivíduo chimpanzé não beneficia a sua espécie, pois nasce e acaba com ele. No caso humano, ocorre exatamente o contrário: toda experiência de um indivíduo é transmitida aos demais, criando um interminável processo de acumulação.
Assim sendo, a comunicação é um processo cultural. Mais explicitamente, a linguagem humana é um produto da cultura, mas não existiria cultura, se o homem não tivesse a possibilidade de desenvolver um sistema articulado de comunicação oral. (...)
 
Eis aí a grande diferença entre homens e animais! A LINGUAGEM!
O homem é um ser social por excelência e diferencia-se dos animais pela faculdade da linguagem. Só o homem é capaz de comunicar os seus pensamentos por meio de diferentes recursos e, principalmente, pela fala.
O que é a linguagem? Será que expressamos a linguagem somente com palavras?
E o que é língua? Será que só existe uma forma válida de se utilizar a Língua Portuguesa? Ou existem variadas formas para diferentes situações?
Tudo isso é o que nós vamos estudar nesta unidade. Ao final, talvez você descubra que há muito mais formas de utilizar a nossa língua do que você imaginava!
 
Objetivos de aprendizagem
- Compreender a linguagem como uma atividade social e exclusiva do homem;
- Identificar como a diversidade linguística manifesta-se;
- Analisar a adequação de determinados usos linguísticos em diferentes situações de interação.
 
Linguagem como criação e criadora de cultura
Você já imaginou como seria uma pessoa criada sozinha, sem contato com outros seres humanos? E se essa pessoa fosse criada por animais, como diz a lenda do Tarzan?
Respondendo às perguntas dadas acima, você deve ter pensado em diferentes situações: essa pessoa sozinha não aprenderia a falar, não teria como desenvolver hábitos comuns a outros, não teria uma história anterior ou modelos que a ajudassem a se colocar no mundo ou mesmo se proteger. Se estivesse em meio a animais, como no caso do Tarzan, certamente acabaria por se comportar e andar como eles.
E como será que nasceu a linguagem? Será que ela só se expressa por meio das palavras? 
Você já deve ter ouvido falar nos homens da caverna. Na história da humanidade, houve um momento em que, pela primeira vez, um homem fez um sinal na parede de uma caverna, fez um gesto ou emitiu um som, conferindo a eles certo significado que foi, então, compartilhado com outros seres humanos. 
Essa capacidade de simbolizar, isto é, de construir e de atribuir significados a desenhos, gestos e sons são exclusivos do ser humano, que, assim, criou diferentes linguagens para se comunicar.
E do tempo das cavernas até os dias de hoje? Que linguagens o homem usa para se comunicar?
E então? Não é difícil perceber que em nosso dia a dia convivemos com diferentes linguagens, não é?
Mas o que é linguagem? 
Podemos expressar nossas ideias, pensamentos e sentimentos por meio de palavras – a chamada linguagem verbal –, mas também por meio de outros sistemas de representação como: o jogo de cores na pintura, o desenho, os sistema de gestos, os sons da música, a expressão corporal da dança, entre outros – a denominada linguagem não verbal. 
Com o advento das novas tecnologias e o avanço científico, verificamos que são múltiplas as formas e os recursos de interação disponibilizados no século XXI. Por meio deles, construímos novos modos de ver, de estar e de agir, no mundo a nossa volta. 
Por tudo isso, dizemos que o homem é, em sua essência, um ser de linguagens: está sempre buscando novas formas de se expressar. Essa expressão torna-se cada vez mais complexa em termos dos recursos utilizados e dos modos de representar o que se quer ‘dizer’.
 
Língua, identidade cultural e variação linguística 
A linguagem verbal, oral ou escrita, desenvolvida por diferentes grupos humanos, concretiza-se em diversas línguas, como: o português, o inglês, o chinês, o espanhol etc. 
 
E o que é língua?
No caso do Brasil, a nossa língua materna é a Língua Portuguesa, herdada como língua oficial em decorrência da chegada dos portugueses, em 1500. 
Mas por que será, então, que o nosso Português é tão diferente do de Portugal? 
Em primeiro lugar não podemos esquecer que o Brasil, quando os portugueses chegaram, já era habitado por índios que falavam idiomas indígenas, como o Tupi, por exemplo. Depois vieram os africanos, que incorporaram à Língua Portuguesa novas expressões e vocábulos, e tantos outros imigrantes de outros países que, em épocas diferentes, trouxeram suas expressões. 
Mas, e no Brasil? A Língua Portuguesa é usada igualmente em todos os lugares?  
Você já deve ter observado, até mesmo em programas de rádio e de televisão, que há mesmo diferenças na forma como as pessoas falam em diferentes regiões do Brasil. Muitas dessas diferenças estão no vocabulário; outras, na forma como constroem a frase (na sintaxe), ou na forma de pronunciar palavras e frases. Por exemplo:
1.    Em São Paulo, as pessoas descem do ônibus. No Rio de janeiro, elas saltam do ônibus. Em Caxias do Sul, elas desembarcam!
2.    Uma média, na capital paulista, é café com leite.  Em Santos, média é um pãozinho. 
3.    Em Porto Alegre, pãozinho é cacetinho. Em Itu, é filão. O filão, em São Paulo capital, é um pão grande e em outras cidades é simplesmente uma fila grande, comprida.
Além de variações regionais, há outras variações sociais relacionadas a alguns grupos e causadas por fatores, como: a escolaridade, nível social, nível de formalidade, idade, pertencimento a um grupo específico como um grupo de Rap etc. Exemplos dessas variações são: 
•    Falar (dependendo do grupo social em que se está inserido) “Nós vai pra festa”/“Nós vamos para a festa”; “Nós se encontremo depois”/ ”Nós nos encontramos depois”; muié/mulher, alevantar/levantar etc. 
•    Utilizar gírias (determinadas pela idade ou pertencimento a um grupo específico) como: “Vaza” ( vai embora); “mina” ( namorada); “se liga” (preste atenção/entenda); “desencana” ( não se preocupe), “curtir um som” ( ouvir musica). 
É interessante notar como certos grupos utilizam uma linguagem própria, afirmando, assim, sua identidade grupal pela linguagem. Pense na linguagem utilizada pelos grupos de pagode, funk, rap, metaleiros etc. 
Qualquer um de nós aprendeu naturalmente a língua em contato com a família e o grupo social. E, ao se comunicar, faz escolhas dentre o conjunto de saberes que tem sobre a língua e sobre o assunto de que vai falar. Isso, no entanto, não prejudica o caráter de unidade da língua (todos nós falamos Português), nem é contrário aos usos e os diversos modos de expressão de outros falantes.
Podemos dizer, assim, que a língua possui variações e, embora seja a mesma, apresenta diferenças de região para região, de pessoa para pessoa, de acordo com o grau de intimidade (formalidade) entre as pessoas, a faixa etária, a classe social, o grau de escolaridade, as profissões, etc. 
Ao reconhecer as possibilidades de variação da língua, estamos sendo coerentes em afirmar que ela expressa a variedade cultural existente na sociedade. 
Agora, divirta-se, conhecendo algumas versões de um mesmo texto, mas com sujeitos de estados diferentes. É um bom exemplo de variação regional.
 
ASSALTANTE MINEIRO
“Ô sô, prestenção. Issé um assarto, uai! Levantus braçu e fiketin quié mióprucê. Esse trem na minha mão tá chein di bala... Mió passá logo os trocado que eu num to bão hoje. Vai andano, uai ! Xispa daqui!!! Tá esperanuquê,sô?!”
 
 
ASSALTANTE BAIANO
“Ô meu rei... (pausa). Isso é um assalto... (longa pausa). Levanta os braçosmas não se avexe não... (outra pausa) Se num quiser nem precisa levantar, pra num ficar cansado. Vai passando a grana, bem devagarinho (pausa pra pausa). Num repara se o berro está sem bala, mas é pra não ficar muito pesado. Não esquenta meu irmãozinho, (pausa). Vou deixar teu documentos na encruzilhada.”
 
ASSALTANTE PAULISTA
“Isto é um assalto! Erga os braços! Porra, meu!...Passa logo a grana, meu. Mais rápido, meu, que eu ainda preciso pegar a bilheteria aberta pru jogo do Corintias, meu!... Pô, agora se manda, meu, vai... Vai...”
 
ASSALTANTE CARIOCA
“Aí, perdeu, mermão! Seguiiiinnte, bichxu. Isso é um assalto, sacô? Passa a grana e levanta usch braço rapá... 
Não méchxi que eu te passo o cerol....Vai andando vira a isssquina e se olhar pra tráiiss vira presunto...
(Circulando pela INTERNET, com adaptações)”
Variações e registros linguísticos
As três manifestações de uso da Língua Portuguesa na atividade anterior foram diferentes, não foram? Quais foram as diferenças? Nas palavras empregadas, na forma de se dirigir a cada uma das pessoas, em função de suas posições sociais? 
Observe que o que mudou em cada situação foi a forma como você registrou a mensagem.
Os registros de uma língua podem ser basicamente:
a.    Formal ou informal, de acordo com o grau de formalismo do discurso e o nível de intimidade existente entre as pessoas. 
Exemplos: Formal: Nós vamos construir uma nova creche no bairro. (Contexto: administrador de uma empresa, falando a um grupo)
Informal: A gente vai ter uma nova creche aqui no bairro.
(Contexto: Morador do bairro informando a um vizinho) 
Veja a diferença no uso de expressões como “Nós vamos” e “A gente vai”. A mensagem é a mesma, mas o que modifica, isto é, varia, é o registro diante da situação: o primeiro, mais formal – ou culto; o segundo, informal – ou coloquial.
O que delimita ser um registro formal ou culto é o conjunto de regras determinadas por uma elite intelectualizada de uma língua. Essas regras estão (pré) determinadas em livros e gramáticas consagradas e veiculadas também pelos dicionários ou pelas academias, como a Academia Brasileira de Letras.
b.    Falado ou escrito, segundo a modalidade de uso. Observe os exemplos a seguir: 
Um jovem FALANDO para um amigo: 
“Olha, cara, sabe que as mina de hoje só querem namorá com caras que podem gasta dinhero com elas.” O mesmo jovem ESCREVENDO numa redação para o professor: 
“Todos sabemos que as moças de hoje só querem namorar rapazes que podem gastar dinheiro com elas.”
Assim, embora escrevendo, se usamos uma expressão “Ta bom” num texto, dizemos que houve um registro de fala, pois reproduzimos a forma como a pessoa falou a expressão. Além disso, também, será um registro informal, pois não houve preocupação com as normas gramaticais fixadas.
E, então: será que, agora, você pode responder às perguntas?
1.    O que é, afinal, falar e escrever corretamente? 
2.    Existe uma única norma a ser seguida? 

A Norma Culta (padrão) da Língua
Entre as variações da língua, existe uma que tem maior prestígio: é a norma culta ou norma padrão. Ela é utilizada em grande parte dos livros, documentos, revistas, jornais, noticiários, artigos científicos entre outros.
Em geral, entende-se por norma culta ou norma padrão a variedade linguística, que vem descrita em manuais de ensino, gramáticas e dicionários. Além de ser nessa norma em que se redigem os documentos oficiais, livros técnicos, científicos, didáticos e religiosos, comunicados oficiais, reportagens etc., ela também é importante em inúmeras situações sociais na nossa vida que exigem uma maior formalidade, como uma entrevista de emprego, uma redação em uma prova ou concurso, uma carta de reclamação dirigida a alguma entidade, uma apresentação em público etc. 
Não conhecer essa norma padrão pode acarretar ao falante problema tanto para produzir textos, quanto para compreendê-los, principalmente, porque, em várias situações sociais, na prática diária, esse conhecimento faz-se necessário. 
Imagine-se em uma entrevista de trabalho, diante do presidente de uma importante siderúrgica. Se você não for capaz de se expressar com clareza, com correção vocabular, poderá, por melhor profissional que você seja, perder a vaga para outro candidato, cuja expressão verbal o qualifica melhor para o cargo pretendido. 
 
A organização da frase, oração e período – Identificando Sujeito e predicado.
Todo texto falado ou escrito, seja em linguagem formal/ culta ou informal/ coloquial, organiza-se, inicialmente em frases.
As frases podem ser escritas sem verbos (chamadas frases nominais), como em:
a.        Boa noite, professora!
b.        Socorro! 
c.         Cafezinho delicioso aquele do bar da esquina: saboroso, quente e doce, na medida.
Ou podem conter verbos (chamadas frases verbais ou orações), como em:
a.        O ônibus estava lotado hoje.
b.        Cheguei atrasado para as aulas e não fui à biblioteca.
c.         O cafezinho daquele bar da esquina é mesmo delicioso: saboroso, quente e doce na medida!
Mas é interessante notar que não é qualquer sequência de palavras que formam uma frase. Por exemplo, se disséssemos:
“Rapaz ontem a moça para passear convidou.”
Ninguém entenderia nada, pois essa não é uma ordenação de palavras possível no Português. Agora, se disséssemos:
“Ontem o rapaz convidou a moça para passear.”; ou
“O rapaz convidou a moça para passear ontem.”, aí, sim, todos a compreenderiam.
Isso mostra que a língua tem, além de palavras, algumas normas que estabelecem como é possível relacionar, combinar ou ordenar essas palavras na frase, para que elas tenham sentido. Isso é a “sintaxe” da língua. Ela é que regula as relações, as combinações e as ordens possíveis entre os termos no interior de um enunciado.
Mais adiante, faremos a análise sintática de orações e períodos, identificando sua estrutura e as funções dos termos que os compõem.
Mas antes, vamos relembrar o que é oração e período?
 
Iniciando a análise sintática do período simples
Vimos antes que fazer a análise sintática de uma oração ou período nada mais é do que observar como ela(e) se organiza, identificando a sua estrutura interna, seus elementos (termos) e as relações entre eles.
Você vai ver que não é nada complicado! Comecemos analisando a oração:
“O ônibus estava lotado hoje.”
O sujeito é o termo sobre o qual se diz algo. Assim, considerando a oração acima, o sujeito é [o ônibus], pois é dele que se fala: “estava lotado hoje” (predicado).
O predicado, geralmente, contém o verbo e diz algo sobre o sujeito. É por isso que, na norma culta, o verbo do predicado quase sempre concorda com o sujeito (em número e pessoa). Veja os exemplos a seguir:
a. [O ônibus] estava lotado.
SUJEITO
b. Estavam lotados [o ônibus e a van].
SUJEITO
c. [Nós] queremos um transporte de melhor qualidade.
SUJEITO
d. Na sexta-feira, [a minha prima e eu] fomos à prefeitura reclamar.
SUJEITO
Quando identificamos o sujeito, torna-se mais fácil identificar o predicado na oração, pois o predicado é tudo aquilo que se declara sobre o sujeito. Assim, no último exemplo apresentado acima, o predicado é:
  • Na sexta-feira, fomos à prefeitura reclamar.
 Trata-se de um predicado verbal, pois o verbo “ir” é um verbo de ação e é o núcleo do predicado.
Por outro lado, observe que, embora seja mais comum o sujeito aparecer no começo, antes do verbo, há muitas orações em que o sujeito aparece depois do verbo, como em:
“Estavam lotados [o ônibus e a van]”.
Nesse exemplo, observe também que o sujeito é composto, porque possui dois núcleos: “ônibus” e “van”, o que obrigou o verbo a ser escrito no plural: “Estavam”. Nesse caso, dizemos que é um SUJEITO COMPOSTO.  
O sujeito pode também estar oculto, como na oração:
“Participei da manifestação.”
De quem se diz “participei da manifestação”? Eu, não é?! Embora não esteja escrito, sabemos que há um sujeito oculto que é “Eu”.
 
Resumo
Estamos no final desta unidade. Vimos que a linguagem é um sistema de signos construído socialmente, que respresenta uma identidade cultural e que existem alguns princípios importantes no que se refere à linguagem verbal e sua variação:
  • o uso da linguagem deve ser adequado a cada situação de interação, de comunicação;
  • nenhuma língua é usada de maneira uniforme por seus falantes;
  • o falante nativo pode dominar diferentes variantes linguísticas usadas em seu país;
  • todas as variantes linguísticas são formas legítimas de expressão de um povo;
  • não há um falar certo ou errado, mas, sim, usos adequados a cada situação de interação social;
  • É importante conhecer e saber usar também a norma culta da língua porque ela é necessária em muitas situações de nossa vida. 
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