4 - A INSTITUIÇÃO ESCOLAR

Como você reagiria se ouvisse ou lesse esta notícia? Ficaria feliz por ver-se livre desta obrigação? Ficaria preocupado, pois você já ouviu falar que sem escolas temos poucas chances na vida? Ficaria triste, pois é na escola que você encontra seus amigos?
Pois é, a escola já faz parte de sua vida diária. Você já cursou oito anos do Ensino Fundamental, está cursando o Ensino Médio, e talvez esteja pensando em ingressar em algum curso superior para seguir uma carreira. Você pode mesmo ser considerado um vitorioso do sistema escolar, uma vez que muitos dos seus colegas que iniciaram a 1ª série com você, não chegaram à 8ª série, e daqueles que chegaram ao fim do Ensino Fundamental, muitos não prosseguiram no Ensino Médio, pois não tiveram condições de arcar com as despesas e exigências da escola. 
Sim! Pois estudar exige esforço e custa caro! São cadernos, livros, roupas, transportes etc. Em nosso país, são poucas as famílias que conseguem arcar com os estudos de seus filhos.
Segundo dados do censo escolar, realizado pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos), em 2004, ingressaram no Ensino Fundamental 26.614.310 alunos, enquanto no Ensino Médio ingressaram apenas 9.169.357 alunos
A notícia apresentada no início do texto pode parecer absurda, mas já houve um cientista da educação que propôs uma “sociedade sem escolas”. Seu nome era Ivan Illich. Illich (1926-2002) era russo, e afirmava que “(...) a obrigatoriedade da educação escolar é uma invenção relativamente nova, e não há porque aceitá-la como se fosse algo inevitável” (GIDDENS, 2005:413).
Lembre-se, no entanto, que a inexistência de escolas não significa a inexistência de educação. Esta última existe em todas as sociedades humanas e são muitos os meios disponíveis para o seu acesso. Estudaremos sobre isto mais à frente 
Retornando a Illich, suas ideias nos sugerem a pensar sobre a origem das escolas. A partir de quando, e por que, esta instituição passou a fazer parte do cotidiano de algumas sociedades?
A escola, tal como conhecemos hoje, intitulada pelos historiadores da educação como Escola Moderna, começou a se configurar em fins do século XVI e ao longo do século XVII.
Antes disso, nas sociedades antigas e medievais, já havia a preocupação com a educação de seus jovens, os quais estudavam ou individualmente, sob a orientação de um mestre, ou em pequenos grupos, independentes de idade ou seriação. Adultos e crianças frequentavam a mesma classe durante o tempo que desejassem ou precisassem, e isso não era considerado um problema. As teorias da psicologia da aprendizagem, que estabelecem etapas para o desenvolvimento humano, virão muitos anos depois.
Mas a escola moderna organiza-se inicialmente com características que já conhecemos bem: 
a preocupação em separar os alunos em classes seriadas, de acordo com a faixa etária; 
a divisão sistemática dos programas de acordo com cada série; 
os níveis de estudos passam a ter um encadeamento: a escola elementar (ler, escrever e contar), com a escola média ou profissional e os estudos superiores; 
o tempo para o estudo e para o cumprimento dos programas para uma determinada série também passam a ser preestabelecidos. Não será mais o ritmo de aprendizado do aluno que dirá de quanto tempo ele necessita para aprender, mas sim o ritmo imposto pela instituição.
Outros elementos muito comuns em nossa prática escolar também passaram a ser utilizados, como o registro das aulas, o controle de frequência (chamada), a elaboração de textos simplificados para cada disciplina (livros didáticos). Junto com isso teremos maior rigor disciplinar, com a criação de normas e regimentos de conduta. Enfim, são práticas que têm a função de organizar, disciplinar e controlar, e que hoje nos parecem naturais e quase imutáveis.
Mas atenção! Um dos principais objetivos do estudo da Sociologia é auxiliá-lo a “desnaturalizar” os fatos sociais, a desconstruir alguns conceitos que, de tão repetidos que foram, parecem ser os únicos verdadeiros. Desnaturalizar a instituição escolar significa saber que ela foi pensada e construída por pessoas como professores, religiosos ou governantes que tinham interesses e necessidades próprias daquele momento histórico. E que, antes desse modelo escolar, existiram outras formas criadas pelas sociedades para transmitirem às suas crianças e jovens os saberes necessários para a vida social. Portanto, cabe a nós e às próximas gerações também pensarmos e construirmos escolas que estejam mais próximas de nossas necessidades e nossos sonhos!
Quais fatores contribuíram para o aparecimento e desenvolvimento das escolas? Foram muitos os fatores. No momento, vamos comentar sobre o contexto histórico que favoreceu o nascimento desta instituição.
As revoluções burguesas, principalmente a inglesa (séc. XVIl) e a francesa (séc. XVIlI), vão encerrar definitivamente o feudalismo e inaugurar um novo modo de produção – o capitalismo. A burguesia, classe social em ascensão, irá conceber uma nova doutrina social ou uma nova ideologia para o capitalismo que se denominará liberalismo. Os princípios do liberalismo são: o individualismo, a propriedade, a liberdade, a igualdade e a democracia. Explicando os princípios: 
A doutrina do individualismo coloca no esforço individual toda a responsabilidade para que as pessoas atinjam o sucesso ou o progresso, desconsiderando as condições econômicas e sociais nas quais estejam vivendo. Para o liberalismo, os indivíduos serão tão mais livres quanto menor for a ação do Estado, ou seja, o Estado não deve interferir e despender recursos para serviços públicos.
Quanto ao princípio da propriedade, significa que todos têm direito à propriedade desde que se esforcem e trabalhem para isso. 
A igualdade, como é tratada no liberalismo, não se refere à igualdade social, mas sim à igualdade perante a lei. Já devem ter ouvido a frase: “Todos são iguais perante a lei”. Pois é, mas em relação às desigualdades sociais, a conversa é outra. Os liberais consideram natural que existam pobres e ricos, uma vez que nem todas as pessoas são talentosas ou esforçadas da mesma forma.
A democracia, defendida pelos liberais, resume-se à democracia representativa, isto é, o direito de todos escolherem seus representantes políticos. No entanto, democracia é mais do que isto, é o direito de usufruirmos igualmente os bens produzidos em nossa sociedade. 
Outro importante movimento que se desenvolve a partir do século XVII, foi a chamada “revolução científica”. A filosofia, e as ciências físicas, químicas e matemáticas sofrem um grande desenvolvimento e há uma supervalorização do pensamento racional e científico. O filósofo e matemático René Descartes (França,1596 – 1650) é considerado o fundador desta doutrina. 
Observe que não fica difícil estabelecer relações entre a doutrina liberal, o pensamento racionalista e o surgimento da escola moderna, tal como essa foi descrita anteriormente.
Vocês viram até aqui uma breve história da instituição escolar, organizada de forma mais ou menos semelhante em grande parte das sociedades. 
 
Mas... E as sociedades sem escolas?
Retomando a ideia inicial desse texto, que apontava como quase absurda a possibilidade da extinção das escolas, temos que tomar conhecimento da existência das sociedades “dez escolarizadas”, ou seja, sociedades que existiram e ainda existem sem a presença das instituições escolares. 
Nessas sociedades, assim como na nossa, a educação é elemento fundamental de socialização e de manutenção do próprio grupo. Nessas, a herança cultural e os saberes necessários para a sobrevivência e a convivência são transmitidos por meio da educação informal. A palavra informal nos revela que a educação acontece, mas sem a necessidade de escolas, salas de aulas, notas, provas, recuperação de estudos etc. e etc. A escola é a própria vida, e os professores são todos aqueles que têm experiências e conhecimentos significativos à comunidade. 
Florestan Fernandes (1920-1995), importante nome da Sociologia brasileira, estudou os povos Tupinambás, e sua pesquisa nos permite conhecer alguns elementos que caracterizam a educação das sociedades tribais:
1º os conhecimentos são acessíveis a todos os membros da sociedade; 
2º a transmissão da cultura faz-se cotidianamente, sem a utilização de recursos ou técnicas pedagógicas; 
3º como se trata de sociedades iletradas, a comunicação dos saberes ocorre oralmente. Aliás, a palavra oral possuía tanto prestígio quanto a linguagem escrita possui em nossa sociedade; 
4º a educação não é privilégio das crianças e jovens, uma vez que os membros da comunidade estão continuamente nos papéis de aprendizes e de mestres.
Três importantes valores perpassam a educação dos tupinambás: a tradição, o valor da ação e o valor do exemplo. 
A tradição possui um valor sagrado; significa que os conhecimentos produzidos pelos antepassados devem ser respeitados religiosamente, sem questionamentos. 
O valor da ação está relacionado à máxima do “aprender fazendo”, ou seja, todos os membros da comunidade devem estar engajados em todas as atividades sociais (resguardadas somente as diferenças sexuais). 
O valor do exemplo refere-se à imitação. Cabia aos adultos a responsabilidade de pensar e agir de acordo com os modelos legados pelos antepassados para servirem de exemplo aos mais jovens, assegurando assim a permanência das tradições. 
É possível perceber que nessas sociedades existia um grande respeito entre todos os membros do grupo, pois as pessoas mais velhas eram especialmente valorizadas pelas experiências e saberes acumulados ao longo dos anos vividos.
Seria possível uma sociedade sem escolas hoje? No tipo de sociedade em que vivemos hoje, que são chamadas de “complexas”, uma educação informal nos moldes das sociedades tribais seria muito difícil de acontecer. As áreas do conhecimento se diversificaram em demasia, e avançam rapidamente. A ciência, a tecnologia, as artes e outras áreas se desenvolvem numa velocidade que nem mesmo os especialistas conseguem acompanhar. Imaginar que tudo poderia ser apreendido informalmente por todos seria irreal!
Seria possível uma sociedade sem escolas hoje? No tipo de sociedade em que vivemos hoje, que são chamadas de “complexas”, uma educação informal nos moldes das sociedades tribais seria muito difícil de acontecer. As áreas do conhecimento se diversificaram em demasia, e avançam rapidamente. A ciência, a tecnologia, as artes e outras áreas se desenvolvem numa velocidade que nem mesmo os especialistas conseguem acompanhar. Imaginar que tudo poderia ser apreendido informalmente por todos seria irreal!
Provavelmente você já percebeu que a escola não é o lugar que mais agrada aos jovens de sua idade. Frequentar a casa dos amigos, andar pelas ruas, ir às baladas, trabalhar ou ficar à toa parecem coisas bem mais agradáveis e interessantes. Por que isto ocorre? Ora, adquirir novos conhecimentos, vivenciar experiências que nos auxiliem na compreensão de nosso mundo e nos façam sentir integrantes na construção da cultura das sociedades, são atitudes que fazem parte da natureza humana. Sem a curiosidade, a vontade de aprender e de buscar formas diferentes para realizar suas tarefas cotidianas, certamente não teríamos saído da idade da pedra, não teríamos desenvolvido a tecnologia, as ciências, as artes, enfim, em todas as áreas, o ser humano não cessa a busca por novas alternativas que visem a melhora da qualidade de vida. Você poderá dizer que isso ocorre por interesses de mercado. Certo. No entanto, isso não quer dizer que não seja necessário estudo, pesquisa, persistência, disciplina...
Para nós auxiliares na reflexão a respeito da função disciplinadora da escola, podemos recorrer às ideias de um filósofo francês – Michel Foucault (1926-1984). Este pensador realizou estudos comparativos entre algumas instituições como prisões, conventos, quartéis e escolas, buscando desvelar suas semelhanças no que se refere aos aspectos de organização e controle. Para Foucault, mais importante do que um poder centralizador e visível, são os “pequenos” poderes que abarcam todo o espaço social, e dos quais não conseguimos escapar, porque estão dispersos. É o espaço físico, o mobiliário, as regras, os olhares vigilantes, as ameaças e as punições agindo sempre no sentido de controlar nossos corpos e nossas consciências, de nós fazermos “úteis”, “dóceis”, treinados para a obediência.
 
Mas o que isto tem a ver com a escola?
A escola é criada (como já vimos anteriormente), num contexto de grande valorização da ciência, e de preocupação com a formação de um “novo homem”, adequado às novas regras e aos novos princípios. Sua função disciplinadora, normatizadora, desde o início é muito clara, quase inerente. Mas seu papel de levar às novas gerações os conhecimentos necessários para a vida social também jamais foi negado. Ainda hoje se perguntarmos a uma criança, por que ela vai à escola, a resposta será: “Para aprender...” Mas aprender o quê? E para quê?
  1. Aprender para nos tornarmos “civilizados”? 
  2. Aprender para nos tornarmos obedientes e conformados? 
  3. Aprender para acreditarmos e aceitarmos que escola não é para mim, mas sim para os “outros”? 
  4. Aprender que aprender é repetir o livro e as palavras do professor? 
  5. Aprender que estudar é difícil e cansativo?
Desde o seu início a instituição escolar tornou-se objeto de estudo privilegiado de filósofos, sociólogos, psicólogos e pedagogos. Mais recentemente, outros profissionais como médicos, arquitetos, historiadores, entre outros, também têm dedicado suas pesquisas à escola e à educação. Você, como aluno, não tem ideia da polêmica que cerca a instituição e a educação escolar. Este lugar, aparentemente tão banal, tem sido alvo de debates acirrados e os resultados apresentados em muitos livros, revistas e discutidos em congressos pelo mundo inteiro.
Para que você compreenda melhor isto que estamos falando, vamos apresentar algumas teorias explicativas sobre a organização e o funcionamento escolar desenvolvidos por sociólogos que se dedicavam a este tema:
Teorias crítico-produtivistas: estas teorias partem do princípio de que a escola é uma instituição que, por meio de suas práticas, conhecimentos e valores veiculados, têm contribuído para a reprodução das desigualdades da sociedade de classe em que vivemos.
Os sociólogos franceses, Pierre Bourdieu (1930-2002) e Jean-Claude Passeron (1930- ), são representantes desta teoria, e acompanhar seus pensamentos pode ajudar-nos a compreendê-la. No interior de uma sociedade de classes existem diferenças culturais. As elites possuem um determinado patrimônio cultural constituído de normas de falar, de vestir-se, de valores etc. Já as classes trabalhadoras (ou dominadas, como são identificadas pelos autores) possuem outras características culturais, diferentes, não inferiores, pois têm lhes permitido sua manutenção enquanto classe. A escola, por sua vez, ignora estas diferenças socioculturais, selecionando e privilegiando em sua teoria e prática as manifestações e os valores culturais das classes dominantes. Com essa atitude, ela favorece aquelas crianças e jovens que já dominam este aparato cultural. Para estes, a escola é realmente uma continuidade da família e do “mundo” do qual provêm. A escola somente reforça e valoriza conhecimentos que estes já trazem de casa.
Já para os jovens filhos das classes trabalhadoras, a escola representa uma ruptura. Seus valores e saberes são desprezados, ignorados, e ela necessita quase que reiniciar sua inserção cultural, ou seja, aprender novos padrões ou modelos de cultura. Dentro dessa lógica, é evidente que para os estudantes filhos das classes dominantes alcançar o sucesso escolar torna-se bem mais fácil do que para aquelas que têm que “desaprender” uma cultura para aprender um novo jeito de pensar, falar, movimentar-se, enfim, enxergar o mundo, inserir-se neste e ainda ser bem-sucedido. Bourdieu chama isso de “violência simbólica”, ou seja, o desprezo e a inferiorização da expressão cultural de um grupo por outro mais poderoso econômica ou politicamente, faz com que esse perca sua identidade e suas referências, tornando-se fraco, inseguro e mais sujeito à dominação.
Perceberam que estes autores fazem uma crítica ao sistema escolar? Afirmam que a escola está organizada para servir apenas a alguns grupos da sociedade, aqueles que já trazem de casa uma bagagem cultural semelhante à da escola.
Essa é uma forma de olhar a escola! Agora vejamos outra: 
Teoria funcionalista – Émile Durkheim (1858–1917) é um dos representantes do pensamento conservador. Sua teoria faz a defesa da ordem social dominante, do chamado “status quo”. Não menciona a necessidade de mudanças, reformas ou muito menos revoluções. Seguindo a linha de pensamento de Durkheim, a escola, assim como as demais instituições sociais, tem a função de imprimir sobre as novas gerações valores morais e disciplinares que visam à perpetuação da sociedade tal como ela está organizada quanto à ordem e no respeito aos poderes dominantes
Durkheim trata a sociedade como se essa fosse uma entidade externa aos indivíduos, acima dos conflitos sociais, das lutas por interesses diversos. A sociedade é assim entendida como um corpo harmônico, com valores e à qual só nos resta a adaptação. 
Pois bem! Para Durkheim a escola não é alvo de críticas, pois funciona adequadamente à sociedade na qual está inserida. Para ele, todos os indivíduos e instituições têm uma função a cumprir, que uma vez, bem desempenhada contribuirá para o progresso e à harmonia social. Os conflitos sociais não resultam das desigualdades provindas da sociedade de classes, mas são espécies de “doenças”, e como tais devem ser “tratadas”. 
 
Esta é uma outra forma de olhar para a sociedade e para a escola!
O conhecimento dessas teorias nos ajuda a compreender o fracasso escolar, este fenômeno que anualmente exclui centenas de jovens da escola. Se formos verificar a origem social destes alunos que não conseguiram concluir seus estudos, verificaremos que pertencem às classes menos favorecidas economicamente, e cujos hábitos culturais estão mais distantes dos padrões oficiais. No entanto, temos que estar atentos ao fato de que as teorias nos ajudam a melhor compreender como e por que as coisas acontecem de uma determinada forma, mesmo que esta forma esteja desagradando ou prejudicando muita gente, como é o caso da escola, arriscaríamos dizer. Mas nenhuma teoria sociológica consegue dar conta de explicar toda a realidade educacional.
 
São formas de olhar para esta realidade!
Corremos sérios riscos ao tentarmos “encaixar” a realidade aos modelos teóricos, se nos fixarmos somente nas teorias e não prestarmos atenção às diferenças e às peculiaridades. Estes são alguns riscos:
1º O pensamento imobilista – ou seja, se a escola existe somente para reproduzir a sociedade desigual que aí está, então nada podemos fazer senão nos adequarmos a esta situação. Esta atitude passiva em nada contribui para desenvolvermos as atitudes críticas e criativas necessárias à criação de um outro modelo de escola. 
2º A generalização – acreditar que todas as escolas são iguais. Que todas têm a mesma organização pedagógica, a mesma interpretação das leis, a mesma ideologia, as mesmas práticas. Ainda bem que isso não é verdade! Vários são os fatores que contribuem para a construção da cultura de cada escola: sua localização espacial e temporal, sua arquitetura, e principalmente seus sujeitos – professores, alunos, diretores, funcionários – verdadeiros autores da educação escolar. A forma como essas pessoas relacionam-se no dia-a-dia escolar, criam e assimilam regras, selecionam e aplicam conteúdos não está necessariamente condicionada às normas oficiais, mas muito mais às preferências pessoais, às opções políticas, às histórias de vida, às formas de pensar e agir próprias daquele grupo, que podem ser mais ou menos coesas.
Perceber a escola dessa forma, em suas peculiaridades e diferenças nos permite ver possibilidades de ação e de mudanças nessa instituição em que passamos tantos anos.
 
Vamos então para uma outra forma de olhar para a escola!
A escola pública, universal e gratuita é um direito garantido pela Constituição Nacional. É uma conquista da sociedade, resultado de muita luta de professores, estudantes, pais e de todos aqueles que se importam com a justiça e com a igualdade social. Mas ao mesmo tempo que é um direito, a educação é obrigatória; ou seja, o Estado tem a obrigação de oferecer escola e os pais ou responsáveis têm o dever de matricularem e manterem seus filhos menores na escola, sob pena de serem punidos até mesmo com a perda da guarda destes.(Art. 22 e 24 do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Parece contraditória essa ideia de algo ser direito, mas ao mesmo tempo ser um dever, no entanto, as contradições que cercam essa instituição não param aí.
A escola é uma instituição regida por normas estabelecidas por grupos externos a esta. No caso da escola pública brasileira, é o Poder Público quem exerce essa função. A escolas particulares também prestam contas ao Poder Público, assim como às entidades que as mantêm. Por exemplo, as escolas confessionais possuem normas que são ditadas pelas organizações religiosas a que estão ligadas.
Mas além das normas ditadas exteriormente, as escolas possuem uma dinâmica interna, como foi falado acima, que lhes permite criar seu próprio sistema de normas e valores, sua própria “cara”, ou o que pesquisadores da educação denominam hoje de “cultura escolar”. Vamos buscar entender como essa “cultura escolar” pode constituir-se a nosso favor.
As escolas são ambientes tensos e permeados de conflitos, o que não deve ser considerado um problema, uma vez que sua população é absolutamente heterogênea: possui origens sociais distintas, assim como diferentes idades, bagagens culturais, visões e projetos de vida. No entanto, algo aproxima essa população: todos procuram essa instituição com um interesse semelhante, qual seja, o de lá sair “melhores” do que quando entraram. Em melhores condições de enfrentar a vida, com mais conhecimentos e preparo para prosseguir os estudos ou buscar uma profissão. Algumas vezes esses objetivos são atingidos, outras não. Para conseguirmos fazer com que nossos objetivos, buscados nesta instituição escolar, coincidam com sua prática, são necessários o esforço e o trabalho conjunto de todos aqueles que a constituem, no sentido da construção de uma escola democrática, participativa e que se integre às nossas vidas.
Para construirmos esta escola podemos buscar inspiração nas ideias de grandes educadores que dedicaram suas vidas ao estudo e à experimentação de formas de educação que tornam as pessoas mais livres, responsáveis, criativas e com autonomia de pensamento. Estes educadores são chamados pela pedagogia de “educadores progressistas”, o que significa que suas propostas educacionais apontam no sentido de uma ruptura com os valores criados e reforçados pela sociedade capitalista (submissão, competição, individualismo), e no estímulo e reforço de valores que podem contribuir para fazermos nossa vida uma experiência diária de solidariedade e, talvez, coletivamente, podermos projetarmos uma nova ordem social. Estes valores são a cooperação, a criatividade, a tolerância, o respeito ao outro e ao planeta.
Conhecido no mundo todo, Paulo Freire (1921–1997) representante da filosofia da libertação, é considerado um dos mais importantes educadores da atualidade. Suas obras e experiências se espalharam pelo mundo principalmente porque após o golpe militar de 1964, que instaurou a ditadura brasileira, Freire foi exilado do Brasil, vivendo e trabalhando primeiramente no Chile, e depois em vários lugares como Genebra, na Suíça, países africanos, como Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe, e Nicarágua, na América Central. Por onde passou, Paulo Freire deixou sua marca de educador comprometido com as classes oprimidas. Quando retornou ao Brasil, após a ditadura, retomou suas atividades na universidade, assumiu cargos políticos e continuou a escrever para aqueles que sonham e acreditam que a educação e o mundo podem ser para todos e não só para alguns.
Educação, para Paulo Freire, inicialmente, tem a ver com conscientização.
Vamos entender o que ele quer dizer com isso. Partindo do princípio de que vivemos numa sociedade dividida em classes, temos alguns grupos que estão na situação de domínio, de poder, e outros (a grande maioria), que vivem à mercê das ordens e decisões tomadas pelos primeiros, numa situação de opressão. Ser oprimido significa não somente estar subjugado economicamente, mas principalmente não ser respeitado em suas manifestações culturais (valores, linguagem, religião etc.), não ter voz na sociedade (suas insatisfações e suas propostas não são ouvidas), e não se considerar sujeito de sua história. A condição de oprimido é muito complexa porque esse, muitas vezes, não se percebe como tal, ou pior, se percebe e considera como “natural” o fato de existirem os que mandam e os que são mandados (visão fatalista), também muitas vezes considera-se mesmo inferior e “merecedor” do lugar que ocupa na sociedade
A educação conscientizadora, proposta por Paulo Freire, tem a tarefa de ao mesmo tempo conscientizar criticamente o educando de sua posição social e mobilizá-lo internamente para a luta pela transformação da sociedade. Portanto, a educação assim entendida, reveste-se de um caráter essencialmente político. Ou seja, além do estudo, do conhecimento, da aquisição de habilidades, a escola tem papel fundamental na construção de sujeitos autônomos, críticos, em condições para lutar pela superação das desigualdades e pela transformação da sociedade. 
Este é o sentido da Pedagogia da Libertação – contribuir para a criação de homens e mulheres “livres” – abertos para a vida, para o novo, para um fazer e refazer permanente na busca do mundo que fará a todos mais felizes, e não somente alguns. 
Algumas pessoas criticam Paulo Freire, acusando-o de utópico ou sonhador. A elas, ele mesmo responde:
“(...) Não há amanhã sem projeto, sem sonho, sem utopia, sem esperança, sem o trabalho de criação e desenvolvimento de possibilidades que viabilizem a sua concretização. O meu discurso em favor do sonho, da utopia, da liberdade, da democracia é o discurso de quem recusa a acomodação e não deixa morrer em si o gosto de ser gente, que o fatalismo deteriora (FREIRE, 2001: 86).
 
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