10. Antiguidade ocidental ou clássica: Roma

1. Formação da sociedade e religião
A origem de Roma
O que sabemos sobre a origem de Roma tem duas fontes distintas: há uma versão que conta a origem lendária da cidade, registrada por Virgílio, no século I a.C., em seu poema épico Eneida. Temos ainda as fontes arqueológicas, que nos mostram indícios de como a região foi ocupada e a cidade de Roma teve início.
 
A lenda
De acordo com a origem mitológica, a história de Roma está associada a dois irmãos: Rômulo e Remo. A trajetória deles se iniciou quando o rei Numítor, de Alba Longa (nome de uma cidade lendária, na Península Itálica) foi deposto por seu irmão, Amúlio. Além de depor o irmão, Amúlio assassinou todos os descendentes de Numítor, com uma única exceção: sua filha, Reia.
Reia se tornou sacerdotisa, condição que a proibia de ter filhos. Mas Marte, deus da guerra, a engravidou. Amúlio forçou Reia a abandonar os seus filhos, acreditando que assim os gêmeos morreriam de fome. Mas não foi o que ocorreu. Os irmãos Rômulo e Remo, abandonados pela mãe, foram alimentados por uma loba e posteriormente foram criados por um pastor e sua esposa. Já adultos, ambos descobriram sua origem e mataram Amúlio, devolvendo o trono a Numítor.
Os irmãos receberam a autorização de Numítor para fundar uma nova cidade na Península Itálica. Devido a desentendimentos relacionados ao local e nome da cidade, Rômulo assassinou o seu irmão, Remo. Assim, Rômulo se tornou o fundador e o primeiro rei de Roma.
 
Início da povoação
Roma está localizada na Península Itálica, com planícies férteis favorecendo o desenvolvimento agrícola e o pastoreio. Os primeiros povos a se estabelecerem na região foram os Italiotas, no século X a.C., divididos em diversos grupos, como latinos e sabinos. Em 1000 a.C., os etruscos se fixaram ao norte do Tibre. Eles tiveram grande influência sobre Roma, assim como os gregos.
Etruscos
A partir do século VIII a.C., os etruscos iniciaram sua expansão para o sul da Itália, dominando diversas regiões. Navegadores e comerciantes, estabeleceram contato com diversas cidades gregas, proporcionando intensa troca cultural.
Por volta de 800 a.C., eles já habitavam em cidades, sendo Roma a mais conhecida. Quase tudo o que se sabe sobre os etruscos provém de seus túmulos, que eram construções subterrâneas semelhantes a casas, ricamente mobiliadas com objetos funerários e pintadas com cenas de banquetes.
O domínio etrusco em Roma se estabeleceu de diversas formas: por meio de relações comerciais, alianças com famílias locais e até casamentos. Durante a presença etrusca, Roma deixou de ser uma comunidade rural e passou por um intenso processo de urbanização e desenvolvimento.
Várias obras de infraestrutura foram realizadas, tais como as drenagens dos pântanos, que possibilitaram a ocupação das áreas inabitadas, e a construção de um sistema de esgoto, chamado cloaca máxima.
Reformas administrativas, como as instituições do registro de cidadãos pela idade, profissão e descrição dos bens também foram realizadas. Diversas assimilações culturais também comprovaram a influência etrusca na formação da sociedade romana, como: uso de toga, crença em prever o futuro no voo dos pássaros, assim como o culto a Júpiter e a Minerva.
 
Sociedade romana: genos
A sociedade romana era estratificada, isto é, estava dividida em camadas sociais muito desiguais: patrícios, clientes, plebeus e escravizados. O grupo que detinha o poder político e econômico, conhecido como patrícios, considerava-se descendente dos fundadores de Roma, o que garantia a concentração do poder nas mãos desses indivíduos.
A elite formada pelos patrícios, os quais eram descendentes dos antigos genos, estava ligada por um mesmo sobrenome, o qual indicava a existência de um antepassado comum. A condição de patrício era hereditária, assegurando a esse grupo a manutenção de uma série de privilégios, como a posse das terras e direitos políticos.
Patriarca romano
O patriarca era quem detinha o poder sobre os genos. Ele era o sacerdote do culto doméstico, por isso não podia ser contestado. Era sempre o membro masculino mais velho da família, possuía autoridade sobre todos os membros e escravizados.
Como proprietário de tudo, ele determinava o casamento das filhas, a divisão da herança entre os filhos, tendo o direito de vida e morte sobre eles, não existindo maioridade legal nem idade de maioridade, sendo o pai detentor da ordem até a sua morte.
Em caso de falecimento, o filho mais velho assumiria a posição de patriarca, ou então a esposa teria que ficar sob a autoridade do parente masculino mais próximo. Quando a moça casava, passava a pertencer à família do marido, assim como os filhos. Era muito importante para os romanos da Antiguidade ter um filho homem para herdar o nome da família e, assim, dar continuidade ao culto dos antepassados. Para isso, poderiam também adotar um filho, o que era um costume comum.
 
Plebeus, clientes e escravos
Aqueles que não eram descendentes dos genos formavam a plebe. Inicialmente, a maioria da população era formada por homens livres, camponeses e artesãos, mas sem direitos políticos, mesmo que enriquecidos.
Outras proibições eram impostas aos plebeus, como o casamento com patrícios. Com a expansão do território romano, a cada conquista aumentavam-se os prisioneiros obtidos nas guerras, que eram transformados em escravizados. O aumento do número de escravizados tornou a vida dos plebeus pobres ainda mais difícil, pois eles não tinham condições de competir de igual com o baixo valor da mão de obra escrava.
Os escravizados, inicialmente em número pequeno, tornaram-se uma das principais mãos de obra, utilizados pelos patrícios nas grandes propriedades de terras, e também pelos plebeus ricos, donos de oficinas de artesanato, que produziam em larga escala para o comércio. A escravidão antiga era caracterizada pelo sentimento de dependência e de autoridade.
Como vimos, muitos plebeus eram camponeses e não conseguiam concorrer com a produção feita em larga escala nas grandes propriedades, pois elas utilizavam a mão de obra escrava. A situação piorou quando os camponeses começaram a participar do exército, pois tinham que abandonar suas plantações, perdendo sua colheita e, por consequência, sua fonte de alimentação.
Muitos se transformaram em escravos por não conseguirem pagar suas dívidas. Os pequenos artesãos também sofriam, pois a mão de obra escrava tornava a produção mais barata, ao mesmo tempo em que a mão de obra livre, remunerada, tornava-se dispensável. Havia ainda uma camada pouco numerosa que ocupava o espaço entre a elite e o restante da plebe, denominada clientela. Tratava-se de homens livres, escravizados libertos, estrangeiros e filhos ilegítimos que estabeleceram vínculos familiares e hereditários com os patrícios, baseados numa relação de troca de favores. Os clientes precisavam do apoio dos patrícios para manter suas conquistas econômicas, além disso forneciam prestígio social aos patrícios.
Deuses gregos e romanos
A influência grega foi marcante na formação da cultura romana, graças às diversas colônias que se estabeleceram na região e à influência helenística. A religião romana, com seus ritos e crenças, também foi influenciada pelos gregos. A religião era muito importante para os romanos, sendo um dos símbolos de união e integração social.
As crenças e os rituais religiosos foram herdados dos etruscos e gregos. Dos etruscos, adotaram a religião doméstica, ou culto familiar, dirigida pelos pais de família, que consistia na adoração dos antepassados. Essa religiosidade primitiva evoluiu para uma forma de religião do Estado, com sacerdotes e, posteriormente, com a divinização do Imperador. Já dos gregos, os romanos importaram algumas crenças e alguns deuses, aos quais deram nomes latinos.
Segundo a crença romana, entre os deuses e os seres humanos estabelecia-se um único compromisso: os deuses protegiam os seres humanos, e nós retribuiríamos com oferendas. Às vezes, o pedido de proteção era feito por meio de carta.
 
2. Monarquia e república
A vida política em Roma Antiga
As transformações sofridas por Roma podem ser percebidas por meio de suas organizações políticas. Como toda sociedade, a vida social em Roma estava em constante transformação: iniciando sua história com uma organização monárquica, posteriormente republicana, e por fim, imperial.
 
Monarquia
A primeira experiência política em Roma foi a monarquia, que coincidiu com a invasão etrusca. Segundo as lendas sobre a origem de Roma, o primeiro rei teria sido Rômulo. Historiadores afirmam que sete reis governaram a cidade de 753 a.C. a 509 a.C., sendo os quatro primeiros sabinos ou latinos e os três últimos de origem etrusca.
Mas, diferentemente das monarquias tradicionais, em que o rei concentra todo o poder em suas mãos, a experiência monárquica de Roma manteve o poder nas mãos dos patrícios, já que o rei governava com o auxílio de duas instituições: o Senado e a Assembleia, chamada de Comitia Curiata. Foi durante a realeza etrusca que Roma iniciou seu desenvolvimento urbano.
A posição de rei era vitalícia, mas o cargo era eletivo. Ocorria uma eleição na Assembleia, formada por todos os cidadãos, que, no momento, eram somente os patrícios.
Os reis governavam com a ajuda do Senado, sendo este composto pelos chefes das famílias mais importantes: os patriarcas. Os reis tinham função executiva, jurídica, militar e também religiosa. O Senado podia vetar as leis apresentadas pelo rei, caso não concordasse com elas. Por essa razão, era o órgão político mais importante.
O reinado de Sérvio Túlio (578 a.C.-535 a.C.) foi responsável por algumas mudanças relativas aos direitos da plebe, permitindo que os plebeus ricos pudessem pagar impostos, participar do Exército e ter alguns direitos políticos. Mas os plebeus ainda não estavam satisfeitos. Por volta de 509 a.C., uma revolta liderada pelos patrícios, mas com o apoio da plebe, destronou o último rei.
República
O desejo da elite romana de controlar o poder levou ao fim da monarquia e ao início da república (509 a 27 a.C.). Você sabe o que significa a palavra “república”? Significa “coisa pública”. A história republicana romana foi marcada pela luta dos plebeus por maior participação política e o início da expansão territorial, que possibilitou a formação de um vasto Império.
Com a instalação da república, foram criadas várias magistraturas, descentralizando o poder. O rei foi substituído por dois cônsules. A função de cônsul abrangia o comando do exército e a supervisão das atividades judiciárias. Porém, para conseguir governar, os dois cônsules precisavam estar de acordo sobre as decisões a serem tomadas, pois um podia vetar as decisões do outro. Quando terminavam o mandato, podiam fazer parte do Senado.
O Senado continuava sendo o órgão mais importante, formado apenas pelos patrícios. Eram eles que elegiam os dois cônsules. O Senado era responsável também por elaborar as leis, e tomar as decisões quanto à política interna e externa de Roma. Assim, além de controlar as terras, a elite patrícia também detinha o poder político.
A organização política das assembleias continuou a fazer parte da tradição romana. Existiam três diferentes assembleias: Centurial, Curial (religiosa) e tribal. A mais importante era a Centurial, formada pela reunião de unidades militares. A formação desta assembleia nos mostra a importância do exército na sociedade romana.
Justamente por isso, o período da república foi marcado pela luta da plebe em busca de maior participação política. Ainda não existiam as leis escritas, e praticamente somente os plebeus ricos haviam conseguido algum poder de participação, ainda que limitado. Na prática, os cargos políticos e as decisões ficavam unicamente sob responsabilidade dos patrícios. Assim, a elite cada vez mais se enriquecia, apropriando-se das terras, dos rebanhos e de outras riquezas obtidas por meio das guerras de conquista.
 
Conflitos sociais entre patrícios e plebeus
A exclusão dos plebeus do exercício do poder encontrou grande resistência por parte desse grupo social. Os plebeus contribuíam com a riqueza de Roma, pagavam impostos e serviam ao exército; mas isso não lhes garantia direitos políticos. Outro fator que contribuía para o conflito entre os grupos sociais eram as guerras, já que durante esse período os plebeus recebiam a menor parte dos espólios.
Após uma vitória romana, ocorria a divisão dos bens retirados dos inimigos, sendo essa partilha desigual. Além disso, ao entrarem no exército, os plebeus eram obrigados a abandonar as terras que cultivavam, aumentando a pobreza e a possibilidade de se tornarem escravos, pelas dívidas contraídas.
Essas condições desiguais perante a lei levaram os plebeus, ricos e pobres a se unirem e organizarem diversas greves militares e motins. Segundo a tradição, os plebeus, em 494 a.C., teriam abandonado a cidade de Roma, dirigindo-se para o Monte Sagrado.
Conquistas plebeias
Com o abandono de Roma e as greves militares, os patrícios foram forçados a negociar, pois a riqueza de Roma e a estabilidade militar eram dependentes dos plebeus.
O Senado concordou com a criação do Tribunato da Plebe, que elegeria os édis: os tribunos da plebe. O tribuno da plebe poderia impedir que leis prejudiciais à plebe fossem aprovadas por meio da palavra “veto”. Sua pessoa era considerada intocável e sua casa, inviolável. As portas ficavam abertas dia e noite para que qualquer cidadão pudesse pedir abrigo. Porém, na prática, os tribunos da plebe eram ricos e muitas vezes usavam seus cargos para ascender a melhores posições.
De qualquer forma, os patrícios foram obrigados a ceder direitos aos plebeus. Esse foi o início de um processo que levou à formação de uma nova elite romana, composta pela união entre plebeus ricos e patrícios. Esse sistema de governo permitiu que Roma exercesse uma sólida liderança, contando com o apoio público à política do governo.
Os plebeus lutaram por quase dois séculos para terem seus direitos reconhecidos. Acompanhe a seguir os principais acontecimentos e as mudanças ocorridas em relação às leis. Observe as datas:
494 a.C. Os plebeus deixam Roma e dirigem-se ao Monte Sagrado. Como resposta, é criado o Tribunato da Plebe: órgão político em que representantes dos plebeus defendiam seus direitos. A princípio, suas decisões só valiam para os plebeus. Com o tempo, podiam vetar a aprovação de leis contrárias à plebe.
450 a.C.  Leis das Doze Tábuas: as leis, que antes eram orais e apenas de conhecimento dos patrícios, passaram a ser escritas e de conhecimento público, por isso ficavam registradas em doze tábuas expostas no Fórum.
445 a.C. Lei Canuleia: estabeleceu a igualdade civil, permitindo o casamento entre patrícios e plebeus.
367 a.C. Lei Licínia Sêxtia: determinava, durante a república, que deveria ser eleito um cônsul plebeu e outro patrício. Também acabava com a escravidão por dívidas.
326 a.C. Fim da escravidão de romanos em definitivo.
300 a.C. Lei Ogúlnia: concedia a igualdade religiosa que os plebeus precisavam para ocupar determinados cargos políticos e religiosos.
287 a.C. Lei Hortênsia: as decisões da Assembleia da Plebe tornaram-se obrigatórias para todos os cidadãos.
A luta da plebe por direitos durou mais de 200 anos e beneficiou principalmente os plebeus mais ricos, pois eram os únicos que realmente conseguiam chegar aos cargos de magistrado ou de senador. Outra consequência dos direitos conquistados pela plebe foi o surgimento de um novo grupo social, os nobilistas, formados pelo casamento entre patrícios e plebeus.
Guerras romanas e formação do Império
Desde muito cedo, os romanos entraram em conflito com seus vizinhos por terras e bens. A forma que os romanos encontraram para defender suas fronteiras foi atacar primeiro, organizando e armando um grande exército. Por isso, Roma deu início a uma política expansionista, primeiro enfrentando os inimigos mais próximos, como os etruscos, os gauleses e os gregos. Desses povos, os romanos confiscavam uma boa parte das terras, metais preciosos, pessoas escravizadas e tributos. Como resultado, em cinco séculos de guerras, a dominação romana se estendeu pelas terras de três continentes: Europa, África e Ásia.
O exército romano era inicialmente composto por todos os cidadãos romanos, ou seja, patrícios. Nessa época, ter terras era um pré-requisito para ser um soldado romano. Com o passar do tempo, mudanças foram realizadas e os plebeus passaram a compor o exército. Mais tarde ainda, devido à expansão do território, foram considerados cidadãos todos os homens livres do território romano, o que ampliou significativamente esse número de soldados.
O exército romano passou a ser fundamental para realizar conquistas e garantir a manutenção das terras conquistadas. Para os ricos, era uma forma de obter riqueza e prestígio; para os pobres, uma forma de enriquecer participando dos saques. Outro fator que acabou atraindo homens foi o fato de os soldados romanos receberem um salário. O salário passou a ser pago a partir de uma reforma promovida por Mário, em 111 a.C. Com isso, não só o exército se tornava ainda mais atrativo aos homens, como forjava uma aliança cada vez mais forte entre os guerreiros e seus líderes. A lealdade daqueles que combatiam estava ligada não à Roma ou ao Senado, mas ao seu general. Esse fato é fundamental no decorrer da história romana e nos ajuda a entender a ascensão dos generais frente ao poder do Senado.
O sucesso militar de Roma deve-se a uma série de fatores, entre eles, a disciplina e a organização de seu exército. Eles acreditavam que estavam destinados a dominar outros povos, o que estimulava as novas guerras. Os saques e as promessas de dinheiro e de terras eram outros atrativos para estimular os legionários.
Guerras Púnicas
O domínio da Península Itálica fez de Roma uma potência. Na disputa pelas rotas comerciais e terras, a cidade entrou em conflitos com outras potências do Mediterrâneo. O mais intenso conflito ocorreu contra Cartago, uma antiga colônia fenícia localizada no norte da África que controlava o Mediterrâneo Ocidental.
Os conflitos entre Roma e Cartago ficaram conhecidos como Guerras Púnicas. Os romanos e cartagineses se enfrentaram em três guerras consecutivas entre 264 e 146 a.C. A primeira Guerra Púnica se iniciou com a intervenção romana nas colônias que pertenciam a Cartago, na região da Sicília. Cartago era conhecida como uma potência naval, enquanto os romanos eram bons nos exércitos por terra. Assim, o combate no mar surpreendeu os romanos, que utilizaram o conhecimento dos gregos na construção de sua frota.
A segunda guerra desenvolveu-se em quase todo o território romano. Aníbal, o líder dos cartaginenses, saiu de Cartagena (colônia de Cartago localizada na atual Espanha), atravessou os Alpes e chegou à península Itálica – tudo isso com elefantes junto ao seu exército (estes, porém, não resistiram à travessia e apenas um chegou ao final do trajeto com vida). O feito de Aníbal, ainda assim, é uma das maiores façanhas militares da história, e garantiu a vitória sobre os romanos. Estes resolveram então atacar Cartago, levando a guerra novamente para a África. Ao fim, os cartaginenses foram derrotados
No último conflito, o objetivo de Roma era eliminar Cartago. E ela o fez, obtendo vitória em 146 a.C. A antiga cidade fenícia foi destruída e os sobreviventes, escravizados. A vitória teve um resultado muito maior do que se poderia esperar, pois, para enfrentar os inimigos, os romanos haviam organizado seu exército e formado uma poderosa frota naval. Além disso, a vitória sobre Cartago trazia para os romanos o domínio sobre Sicília, Córsega, Sardenha, Espanha e Macedônia, ou seja, o controle sobre as rotas do Mediterrâneo ocidental.
Em seguida, já no século I a.C., comandados pelo ambicioso general Júlio César, completaram a conquista da Gália (França atual). Anos depois, os romanos tomaram as terras em volta do Mar Mediterrâneo, invadindo o Egito e o norte da África.
Transformações sociais
As conquistas territoriais romanas trouxeram mudanças profundas na vida social, econômica e política. As terras conquistadas eram do Estado, que as distribuía aos cidadãos. Mas grande parte delas passou para os patrícios e para os comerciantes enriquecidos com as guerras. As guerras também aumentaram a quantidade de pessoas escravizadas, com a conquista de diversos povos.
Os povos conquistados recebiam diferentes formas de tratamento, e este era o meio pelo qual os romanos impediam possíveis revoltas. Alguns se tornavam povos federados, mantendo sua autonomia administrativa, e eram considerados aliados.
Muitos receberam o direito de se tornar cidadãos, o que significava que pagariam impostos e teriam os mesmos direitos políticos, jurídicos, civis e religiosos que os cidadãos romanos. O aumento do número de cidadãos era fundamental, pois estes tinham o dever de servir ao exército, que, por isso, tornava-se cada vez mais numeroso.
Outros povos ainda podiam receber apenas algumas condições especiais, como o direito de se unir em casamento com os romanos ou ainda estabelecer relações comerciais. Os que não aceitavam se submeter eram comercializados como escravizados.
As conquistas territoriais possibilitaram a Roma acumular muitas riquezas, mas também fizeram elevar o número de pobres nas cidades e nos campos, aumentando a instabilidade política. Diante dessa situação, Tibério Graco, eleito tribuno da plebe em 134 a.C., propôs várias mudanças.
Uma delas estabelecia uma reforma agrária que limitava o tamanho das propriedades rurais e distribuía terras aos camponeses pobres que lutavam na guerra. Apesar de aprovada pelo Senado, a proposta teve resistência das elites; por isso, Tibério foi assassinado. Após dez anos, as propostas de Tibério retornaram por meio do irmão, Caio Graco, também eleito tribuno da plebe. Caio conseguiu aprovar as Leis Frumentárias, que garantiam a venda de trigo a um preço mais baixo para os plebeus. Sua tentativa de retomar a proposta da reforma agrária elaborada pelo irmão, porém, sofreu resistência novamente e, para pôr fim às perseguições que sofria, Caio Graco acabou por cometer suicídio.
O aumento do número de pessoas escravizadas durante a expansão também favoreceu a organização de revoltas. Entre os anos 136 e 132 a.C., 200 mil escravizados rebelaram-se. Chegaram a dominar a Sicília, mas no final foram vencidos e duramente reprimidos pelas legiões romanas. Décadas mais tarde, entre 73 e 71 a.C., ocorreu a mais famosa rebelião de pessoas escravizadas da história romana, que mobilizou 80 mil escravizados liderados pelo gladiador Spartacus. Os revoltosos foram vencidos e impiedosamente punidos.
3. Império Romano
Triunvirato
Após o governo de Silas (183 a.C.-78 a.C.), alguns territórios conquistados pelos romanos foram ameaçados por revoltas, exigindo grandes campanhas militares. Isso possibilitou que alguns generais disputassem o poder. Os três mais influentes eram César, Crasso e Pompeu.
Ao decorrer da política expansionista romana, esses três generais garantiram conquistas e controle das regiões dominadas. Crasso foi responsável pela vitória contra Spartacus, na revolta escrava. Já Pompeu se destacou após a luta que encerrou uma rebelião popular na Península Ibérica, e Júlio César ampliou os domínios romanos conquistando a Gália. Esse período, marcado por conflitos externos e crises políticas internas, levou à realização de um acordo em 60 a.C. entre as camadas sociais dominantes, formando o Primeiro Triunvirato: o poder da república foi dividido entre esses três generais. Em 53 a.C., com a morte de crasso, os senadores aproximaram-se de Pompeu e afastaram César do governo. A Guerra Civil desencadeada por essa crise permitiu a Júlio César e suas legiões a tomada do poder pela força. O Senado não teve outra escolha senão conferir a César o título de ditador vitalício (46 a.C.).
César assumiu os poderes de cônsul, tribuno, sumo sacerdote e supremo comandante do exército. Durante o seu governo, realizou uma reforma político-administrativa, distribuiu terras entre os soldados, impulsionou a colonização das províncias, construiu obras públicas e reformulou o calendário, conhecido como Juliano, que dividiu o ano em 365 dias.
Mas os seus poderes despertaram a oposição de grande parte dos senadores, que tramaram a sua morte. Eles temiam que o poder de César levasse ao fim da República e à volta da Monarquia. Por isso, em 44 a.C., César foi assassinado, em pleno Senado, por uma conspiração. O efeito da morte de César foi uma grande revolta na população e uma nova guerra civil. Um segundo triunvirato foi formado, composto por Marco Antônio (um dos generais aliados de Júlio César), Otávio (sobrinho e filho adotivo de César) e Lépido.
Após eliminar os opositores de César, o triunvirato iniciou suas disputas internas. Otávio, aproveitando-se da ausência de Marco Antônio, que se encontrava no Egito, tentou ampliar seus poderes, e declarou guerra ao antigo aliado. Acusado de trair Roma ao se casar com Cleópatra e deixar toda sua herança para ela, inclusive terras romanas, Marco Antônio enfrentou uma guerra contra Otávio. Nessa guerra, Marco Antônio foi derrotado na batalha naval de Accio, em 31 a.C.
Com apoio do exército, que lhe dera o título de imperador, Otávio recebeu do Senado, em 27 a.C., o título de Princeps (primeiro cidadão) e de Augustus (título reservado aos deuses e nome pelo qual passou a ser conhecido), o que o tornava senhor absoluto de Roma. Com isso, Otávio tornava-se o comandante-chefe do exército, podendo ainda ditar leis e recusar as decisões do Senado. Com isso, chegava ao fim a República Romana e tinha início o Império.
A partir desse período, o poder estava concentrado nas mãos do Imperador, que decidia qualquer questão; todas as magistraturas estavam subordinadas a ele. Até mesmo o Senado, outrora poderoso, e as assembleias, acatavam suas determinações. Com a morte do Imperador, outro o sucedia, geralmente por indicação testamentária, o que causava grandes conflitos e rivalidades entre os poderosos.
Sob a orientação de Augusto, foi abandonada a política agressiva de conquistas e aperfeiçoada a administração das províncias. As províncias eram administradas por governadores nomeados pelo Imperador, que exigia o pagamento de impostos e a obediência às leis imperiais. Os homens das províncias eram admitidos no exército, e a aristocracia local recebia cargos públicos.
Esse novo curso contribuiu para que o Império vivesse um período de tranquilidade, que se tornou conhecido como Pax romana (paz romana), estendendo-se pelos dois primeiros séculos da Era Cristã. Roma atingiu o apogeu, ingressando num período de prosperidade, estabilidade político-social, realizações intelectuais e disseminação dos costumes romanos pela Europa, Ásia e norte da África.
Augusto fundou colônias, conquistou novos territórios, nomeou senadores, restaurou templos, construiu termas, teatros, aquedutos, incentivou a literatura, montou a guarda pessoal – a guarda pretoriana. Não por acaso, o primeiro século da Era Cristã ficou conhecido como “século de Augusto”. Mas em meio à riqueza e ao luxo da aristocracia, Roma estava cheia de plebeus miseráveis, que não encontravam empregos devido à escravidão, ou perderam suas terras, em razão dos latifundiários. Então, no início do Império, foi adotada a política do pão e circo, para reduzir as tensões sociais e apaziguar a plebe romana.
Essa política consistia na distribuição de trigo para a população carente associada à organização de espetáculos públicos, ambos custeados pelo Estado. Era a forma de evitar as rebeliões sociais.
A sucessão imperial não obedecia a nenhuma regra fixa. O poder era de origem militar e o próprio imperador escolhia seu sucessor, cabendo ao Senado apenas confirmar a decisão. Otávio Augusto iniciou o costume de indicar o sucessor e adotá-lo como filho. O costume de adoção foi mantido pelos imperadores seguintes. No decorrer dos séculos I e II d.C., o Império Romano viveu uma época de relativa estabilidade política e intensa produção cultural. Após a morte de Otávio, o Império foi governado por quatro dinastias de imperadores.
Coliseu
Os combates entre gladiadores eram os espetáculos mais populares. Segundo historiadores, esse costume passou a fazer parte da sociedade com a influência etrusca e já eram realizados durante a república. Porém, foi durante o Império que o espetáculo foi reestruturado, ganhando características públicas e adquirindo maior importância na vida cotidiana romana. Diversos anfiteatros destinados a esses espetáculos foram construídos por todo o Império Romano. Possuíam uma arena oval, rodeada por assentos para o público que desfrutava do evento. O maior é o Anfiteatro Flávio, conhecido como Coliseu, construído no século I a.C., com capacidade para 50 mil pessoas. No subsolo, ficavam as salas destinadas aos gladiadores, às feras e à maquinaria que permitia as mudanças de cenário na arena.
No Coliseu também eram realizadas as corridas de biga. A biga era uma espécie de carro de combate puxado por cavalos e era bastante popular na Antiguidade.
Gladiadores
Os protagonistas dos espetáculos organizados nos anfiteatros eram os gladiadores. Recebiam esse nome pois usavam uma espada curta chamada gládio, mas outras armas podiam ser usadas por eles, como redes, escudos, clavas e tridentes. Eram escravizados e, às vezes, homens livres provenientes de diferentes origens. Escolhidos por sua capacidade física, recebiam treinamento especial para serem transformados em lutadores. Eram treinados para esses combates, existindo até empresários especializados que lucravam no recrutamento e treinamento dos gladiadores. Em Roma, havia algumas escolas de gladiadores e, somente após um teste final, o candidato era aceito. Sua função era atrair as multidões aos circos, enfrentando animais ou outros lutadores. Há também registros de mulheres gladiadoras.
Durante o combate, no Coliseu, os gladiadores entravam armados e lutavam até a rendição do adversário. Ao final do combate, o vencedor podia sacrificar a vida do perdedor, desde que autorizado pelo Imperador. Os melhores muitas vezes eram poupados diante do pedido dos espectadores, e alguns chegaram a ganhar a liberdade após obter o prestígio perante o público.
Durante séculos, os combates foram responsáveis pelo lazer e pela diversão dos romanos, mas no século IV d.C. eles foram proibidos pelo Imperador Teodósio, após sua conversão ao cristianismo.
4. Economia e cultura no Império
Economia
Atualmente, vivemos em um mundo globalizado, o que nos permite consumir produtos fabricados nos mais distantes e diversos lugares do planeta. Esses produtos podem ser industrializados ou feitos artesanalmente. Podem ser objetos materiais ou culturais, como músicas e filmes. Entretanto, no período romano, o transporte de pessoas e mercadorias era mais difícil, tornando a comunicação entre locais mais custosa.
Quanto mais crescia o número de territórios dominados, mais surgia a necessidade de ligação das regiões mais distantes com a capital. Esse problema foi resolvido com a construção de estradas que colocavam em contato os diferentes pontos do Império. Elas tinham como função permitir o deslocamento rápido das tropas e do correio e eram construídas pelos escravizados e soldados romanos quando estes não estavam combatendo. Até o século XIX, quando foram criadas as ferrovias, as estradas romanas ainda eram as melhores existentes na região.
As mercadorias, diferente do que você pode imaginar, eram preferencialmente transportadas não por terra, mas por água, por ser mais rápido e barato. O Mar Mediterrâneo transformou-se num imenso “lago” para os romanos, que dominavam todas as terras ao seu redor. Havia intensa atividade comercial movimentando as rotas pelo Mediterrâneo e fornecendo aos romanos os produtos das mais distantes origens, como a seda vinda da China. Porém, a agricultura continuou sendo uma atividade fundamental; o trigo provinha principalmente da Sicília e do Egito.
Apesar de toda a riqueza que fluía no Império por meio do comércio e dos impostos, a maioria dos romanos vivia na pobreza. Grande parte de seus habitantes não gozava das vantagens proporcionadas pelo Império.
 A desigualdade na sociedade imperial era refletida no cotidiano das cidades, principalmente na sua organização e nos diversos tipos de moradias. Os pobres moravam em habitações pequenas e precárias, prédios de até seis andares, conhecidos como Insulae. O uso da mão de obra escrava ainda era a base da economia. Já os ricos desfrutavam de dois tipos de moradias, a Villa, no campo, e a domus, casa espaçosa na cidade.
Entre os romanos, o trabalho começava cedo, a partir das 6h da manhã. Após o almoço, havia uma pausa para a sesta. A principal refeição do dia era a ceia, composta por entrada, prato principal e sobremesa. As pessoas mais humildes tinham ceias mais simples.
Cultura no Império Romano
Mesmo após sua queda, Roma não deixou de existir, já que sua cultura influenciou diversos povos e nos deixou heranças visíveis até a atualidade. O Império romano foi responsável por grandes transformações no cenário europeu, especialmente no contato com os outros povos. A transmissão de características e valores romanos aos povos dominados é chamada de romanização. Mas como se deu esse processo, será que foi pacífico e igual para todas as populações com quem Roma entrou em contato?
Por muito tempo, os estudiosos tinham uma ideia equivocada sobre a relação entre Roma e os territórios por ela controlados. Na verdade, hoje se sabe que essas relações variavam: os povos que cooperavam podiam até manter seus líderes locais, enquanto as populações resistentes eram derrotadas e escravizadas. Alguns povos aliados tinham todos os direitos que um cidadão romano, incluindo o direito ao voto. A maioria deveria auxiliar Roma com o fornecimento de tropas quando necessário.
Alguns povos aceitaram a cultura romana (seu idioma, leis e costumes cotidianos) e a perda de sua autonomia política, pois podiam prosperar com o comércio de produtos agrícolas sob domínio de Roma. Afinal, a dominação de Roma não era feita apenas com o uso de violência, mas também impondo a paz em suas províncias.
Engenharia romana
O Império Romano também ficou conhecido pelo seu domínio da engenharia. Era em suas grandes construções que o poder imperial materializava a força de Roma. Com técnicas avançadas de construções, os romanos mudaram a aparência das regiões conquistadas. Aquedutos, teatros, fóruns e estradas estabeleceram um novo modelo urbano, sendo imitado por quase todas as cidades do Império. O domínio das técnicas de construção caracterizou os costumes e criaram novas áreas de lazer nas cidades romanas, proporcionando uma vida cotidiana rica. As termas são um exemplo disso. Eram locais destinados aos banhos públicos, enormes edifícios com piscinas de água quente, morna e fria, saunas, salas de massagens, de ginásticas e de descanso, salões de leitura e jardins, que funcionavam como um clube para parte da população. Havia seções separadas para homens e mulheres; algumas eram luxuosas e frequentadas apenas pela elite romana.
 
Direito Romano
O Direito Romano é uma das maiores heranças romanas presentes nos dias atuais. Serviu de base para Códigos Civis de diversos países, inclusive do Brasil. Os romanos detinham grande interesse pela justiça, sendo a própria palavra de origem latina. Desde muito cedo, a criança recebia as primeiras noções de direito e especialmente de obediência às leis por meio de combinados e acordos. Era esperado da educação dos meninos (porque poucas meninas recebiam educação) que, quando adultos, eles dominassem as leis e fossem bons oradores, pois o conhecimento das leis e o domínio da fala garantiriam uma vida política destacada.
Assim, por meio das leis e normas de conduta, Roma regulava as relações dentro do Império e possibilitava a coexistência entre os diversos povos conquistados. Durante a monarquia, as leis eram transmitidas pela oralidade e baseadas nos costumes. Foi no decorrer da república que as leis passaram a ser escritas. Os códigos contidos na legislação eram instruções que regulavam aspectos da vida social, como demarcação de terras, incêndios, traições e homicídios. Mas a prática do Direito era complexa, sendo necessário consultas aos sacerdotes para definir o momento certo de entrar com um processo ou realizar um julgamento.
Legado intelectual
A sociedade romana é responsável por um grande legado intelectual, considerado um dos berços da cultura ocidental. A língua oficial do Império era o latim, mas o grego era muito utilizado pelos romanos, sendo comum a utilização do idioma na capital do Império.
Roma também se caracterizou como um centro de difusão cultural, repleto de artistas, escritores e filósofos, criando o berço da literatura latina. Herdeira das formas literárias gregas, no início os romanos escreviam comédias e tragédias. A partir do século I a.C., surgiu uma literatura mais latina. Entre os gêneros da literatura latina, encontramos a poesia, a sátira, cartas e tratados filosóficos. Um dos maiores escritores romanos foi o poeta Virgílio, autor de Eneida, que narra a história de Eneias, herói troiano relacionado às origens heroicas de Roma.
Além de Virgílio, Tito Lívio também escreveu sobre a origem de Roma, em sua obra extensa conhecida como História de Roma. Outro autor romano de destaque é Cícero, orador e advogado. Seus discursos foram bastante influentes e mais de 50 deles chegaram até nós.
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