2. Migrações e invasões
Durante toda a história da humanidade, ondas migratórias influenciaram na organização e na própria transformação dos agrupamentos humanos. Diversos fatores explicam esses deslocamentos e suas consequências, sendo muitos desses movimentos  responsáveis pelo fim de diversos impérios, inclusive o romano. 
 
Migrações e invasões
A partir do século III d. C., os movimentos migratórios de povos vindos da Germânia modificaram radicalmente o Império Romano, propiciando, no século V, sua queda.
As primeiras migrações germânicas ocorreram em meados do século II e se tornaram mais intensas na segunda metade do século IV (376), quando esses povos conseguiram adentrar o já enfraquecido Império Romano, ocupando grande parte de seu território.
Considerados bárbaros pelos romanos, por não falarem o latim, pela aparência física e por manterem costumes considerados inferiores aos valores romanos, muitos germânicos abitavam as fronteiras do Império Romano. Não havia entre os germanos um sentimento de nacionalidade, ou de união. Afinal, eles podiam ser rivais, inclusive guerreando entre si. O que os unia era o fato de estarem além dos domínios do Império Romano, a ênfase que davam à guerra e à vida no campo, pois eram, em sua grande maioria, camponeses. 
A necessidade de ampliar constantemente o Exército romano, fundamental na proteção das fronteiras, e a oferta de salários aos soldados atraíram muitos guerreiros de nações bárbaras a essa instituição romana. A popularização de soldados de origem bárbara levou o termo a ser usado como sinônimo de soldado. 
O termo bárbaro foi utilizado para definir as populações originárias do norte da Europa e das planícies do continente europeu, conectando-o à Ásia. Podemos dividi-los em três grandes grupos: os germânicos, situados na Europa Centro-ocidental; os eslavos; habitantes da Europa Centro-oriental; e os turco-mongóis, vindos da Ásia central.
 
Os germânicos
Os germânicos eram povos que habitavam a Germânia, região da Europa entre os rios Reno e Danúbio, no norte do Império Romano. Esses povos estavam divididos em vários grupos como os alamanos, burgúndios, francos, godos, jutos, ostrogodos, saxões, suevos, vândalos, visigodos e outros. Apesar de estarem organizados em tribos, os povos da região compartilhavam a mesma língua e alguns aspectos culturais. 
Diferentemente dos romanos, os povos germânicos constituíam as bases da vida social, política e econômica na família e na comunidade. Caracterizados como povos guerreiros, tinham a guerra como um dos elementos mais importantes para sua sociedade.
 
Sociedade
Os germânicos se organizavam em comunidades, o vínculo familiar garantia a manutenção da ordem e da justiça. No núcleo familiar, o pai exercia a autoridade máxima. O poder sobre a família era repartido com as esposas, consideradas guardiãs das tradições familiares e religiosas. 
A sociedade era organizada em quatro camadas sociais: a nobreza, constituídas por famílias que se afirmavam descendentes diretas das divindades, detinham também o poder político; os homens livres, únicos autorizados ao porte de armas e participação das assembleias; os semilivres, populações submetidas ao domínio germânico; e por fim, os escravos, prisioneiros de guerra ou indivíduos que não conseguiam pagar suas dívidas. 
O poder político entre os germânicos era exercido por um rei ou por um grupo de nobres, sendo as principais decisões tomadas nas assembleias dos combatentes – apenas guerreiros participavam. Com o passar do tempo, o poder político se transformou em hereditário. Os grupos armados eram liderados por um nobre ou rei germânico, formando um vínculo de companheirismo e fidelidade denominado comitatus. O comitatus garantia a organização de diversos grupos armados, em que os jovens guerreiros prestavam um juramento de fidelidade ao chefe e, como recompensa, os chefes dividiam parte dos saques da guerra e das terras conquistadas.
A transmissão oral era uma das principais características da cultura germânica: tanto as leis quanto as tradições eram transmitidas oralmente. A palavra era considerada a materialização da própria honra, estabelecendo a confiança nos acordos firmados entre a comunidade. As leis orais que regiam as comunidades eram baseadas em costumes bem distintos como o ordálio e o Wergeld, que permitiam a realização da justiça com as próprias mãos.
 
Religião
Apesar de habitarem a mesma região e compartilharem a língua, não existiu uma religião única entre os povos germânicos. Mas muitas divindades foram difundidas entre eles, sendo cultuadas por diversos povos da região. Essas divindades compõem uma fascinante mitologia, em que os deuses possuíam características divinas e humanas, compartilhando o valor da guerra, da honra e da força. Entre os mais populares estão Odin, Thor, Loki, Friga e Hel. Mesmo contendo uma crença religiosa diferente do cristianismo, alguns costumes culturais dos rituais germânicos foram incorporados à tradição cristã, como enfeitar pinheiros em dezembro, similares às árvores de natal que foram adotadas como símbolo da festa que celebra o nascimento de Jesus
 
Início das invasões
Desde o início da Era Cristã, diversos povos germânicos já haviam se estabelecido no Império Romano de forma pacífica. Mas, a partir da segunda metade do século IV, pressionados por povos vindos da Ásia, os germânicos passaram a invadir o Império Romano iniciando um período de conflitos. A fixação desses povos nas terras do Império Romano ocorreu em duas fases. A primeira fase ocorreu durante o século V e início do VI. A segunda ocorreu a partir do século VI, quando os germânicos estabeleceram domínios duradouros em terras romanas, modificando a cultura e a economia europeia. 
Um dos principais fatores que desencadearam o início das invasões foi a ameaça dos hunos, tribo asiática originária da Mongólia que iniciou ataques na região da Germânia, levando-os a se refugiarem dentro do Império Romano durante um século.
Os hunos eram cavaleiros nômades, dedicados à caça e à rapinagem, considerados extremamente violentos e com grande habilidade guerreira.
Em 375, os hunos deslocaram todos os seus inimigos em direção ao oeste e fundaram, no início do século V, na Europa Central, um vasto Estado nômade de fronteiras incertas, dirigido por um rei hereditário, Átila. Rei dos hunos, em 434, Átila conduziu seus exércitos contra as fronteiras do Oriente e as cidades dos Bálcãs. Posteriormente, em 451, saqueou todo o norte da Gália. Contido diante dos romanos e de seus aliados bárbaros, voltou-se, no ano seguinte, contra a Península Itálica, saqueando toda a planície do Vale do Pó, no norte da Itália.
 
Os visigodos em Roma
Diante das ameaças dos hunos, diversos germânicos foram recrutados pelo exército romano com o intuito de proteger suas fronteiras. Esses povos ficaram conhecidos como federados. Mas, no decorrer do século IV muitos povos que haviam servido o exército romano começaram a ficar insatisfeitos com a condição de federados e iniciaram ataques ao próprio Império Romano, que antes defendiam. Os visigodos, chefiados por Alarico, saquearam Roma em 410 d.C. O saque não significou o fim do Império, mas deixou claro que suas fronteiras não eram mais protegidas como no passado. 
Os vândalos na África
Em 455, Roma foi invadida e saqueada pela segunda vez por Genserico (rei da Bética, atual Espanha). Nessa época, a capital do Império Romano foi transferida para Ravena (Itália). Estabelecidos na África, os vândalos conquistaram a região da atual Tunísia, onde fundaram o primeiro reino germânico. Era um reino guerreiro, apoiado em um poderoso exército, e tinha como capital a cidade de Cartago. Muitos aristocratas romanos que habitaram a região tiveram suas terras confiscadas e fugiram. O rei Genserico representou um perigo ao controle romano do Mediterrâneo, ameaçando constantemente o abastecimento de trigo a Roma. 
 
Os ostrogodos na Itália
Em 476, o imperador romano Rômulo Augusto (considerado o último imperador romano), de 10 anos, foi deposto pelo exército de Odoacro, chefe da tribo germânica dos hérulos. Nessa época, as tribos germânicas já haviam conseguido organizar diversos reinos nas terras que antes pertenciam ao Império Romano. 
Estabelecidos na Península Itálica, os ostrogodos tiveram um período de prosperidade sob o governo de Teodorico (474-526), que manteve as antigas leis, cunhou moedas, conservou os magistrados e os empregados nos cargos de outrora e, sobretudo, soube ganhar apoio da classe senatorial, respeitando seus privilégios e o povo de Roma.
 
Os visigodos na Espanha
Os visigodos, ou godos do Oeste, se fixaram nas regiões dos Bálcãs no século VI, e no século seguinte ocuparam parte da Gália, de onde foram rechaçados. Estabeleceram-se, enfim, em grande parte da Península Ibérica, tendo a cidade de Toulouse como capital. Entre todos os povos, os visigodos foram os que melhor se romanizaram, sendo o deles, sem dúvida, o mais poderoso dos reinos bárbaros. No século VII, o Reino Visigodo destacou-se por ser o centro de uma rica vida cultural. Entretanto, no século VIII, parte da região foi invadida e conquistada pelos muçulmanos, que realizavam seu processo de expansão.
 
Os francos
Os francos, provenientes das margens inferiores do rio Reno, conquistaram todo o Norte da Gália. Diferentemente dos outros reinos rormano-germânicos, os francos conseguiram estabelecer uma unidade política e criar um Estado duradouro. Isso foi possível graças a Clóvis (também denominado Clodoveu ou Meroveu), que realizou a unificação das tribos e a sua conversão ao cristianismo, estabelecendo, assim, uma unidade política e religiosa dentro do reino.
 
Sob as ruínas de Roma
Antes mesmo das invasões bárbaras o Império Romano já se encontrava descentralizado, mas parte de sua estrutura seria mantida viva entre os bárbaros, que assimilaram muitos dos conhecimentos dos romanos ao se organizarem em reinos. A maioria dos reinos romano-germânicos teve curta duração. Um dos principais entraves para sua manutenção era a questão da patrimonialidade do reino: para os bárbaros, o reino pertencia ao rei. Quando o rei morria, o reino era dividido entre seus filhos, causando constantes conflitos. O exército permanente, sob a legitimidade do Império Romano tal como havia sido concebido, deixou de existir, assim como as leis escritas que desapareceram em muitas regiões. O comércio entrou em decadência, assim como a produção das oficinas. 
As cidades foram aos poucos diminuindo, suas populações passaram a migrar para regiões rurais à procura de terra para cultivo e de proteção oferecida pelos donos das terras devido aos ataques bárbaros. Foi um período caracterizado pela ruralização e pelo fortalecimento da Igreja Católica, única instituição a se manter unida.
 
Uma nova cultura
Dois elementos fundamentais permaneceram e exerceram uma importante influência na construção da sociedade e da cultura medieval, que nascia da mistura da cultura romana com as culturas dos povos bárbaros: a manutenção do latim e a Igreja Católica.
O latim, idioma conhecido nas mais distantes regiões do Império Romano, manteve sua importância e continuou sendo usado em documentos. Deu origem, no século VI a novos idiomas (francês, português, espanhol, italiano) e palavras do latim foram incorporadas ao dialeto bárbaro. 
A Igreja Católica permaneceu como a principal instituição europeia, aumentando ainda mais seu poder com a conversão dos povos bárbaros, assumindo, nesse momento, funções políticas. No meio da instabilidade provocada pelas invasões, coube à Igreja Católica assimilar algumas crenças dos povos bárbaros, manter a ordem e oferecer valores “espirituais”, por meio de uma doutrina que se propunha ser igual para todos os seus membros.
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