1. Política e economia
O Império Romano do Oriente conseguiu sobreviver por 1 100 anos depois do fim do Império Romano do Ocidente. Seus governantes sempre se consideraram romanos e, portanto, legitimamente herdeiros de um passado glorioso. Conhecido como Império Bizantino, durante sua história vivenciou grande esplendor.
• Quais os principais motivos que levaram à sobrevivência do Império Romano do Oriente?
• O que possibilitou o desenvolvimento do Império Bizantino, diferentemente do Império Romano do Ocidente, que sofreu a fragmentação?
 
Bizâncio
As províncias romanas do Oriente se caracterizavam por serem mais ricas, urbanizadas e populosas, comparadas com as do Ocidente. Ao contrário da parte Ocidental do Império, duramente atingida pelas invasões bárbaras, o Império Romano do Oriente conseguiu, com o uso da diplomacia e com o pagamento de tributos a povos inimigos, afastar as invasões bárbaras.
Desde Constantino (272-337), o Império havia adotado a religião cristã e, durante a Idade Média, sua capital foi a maior cidade cristã do mundo. Devido ao desenvolvimento do comércio e sua grande extensão (abrangia a Grécia, o Egito, as províncias da Síria, Palestina, Mesopotâmia e a Ásia Menor), o Império reunia diversos povos, como os gregos, egípcios, semitas, armênios, entre outros. Assim, Bizâncio caracterizou-se justamente por misturar diferentes elementos culturais, sendo os principais a religião católica, a língua e a cultura gregas, e a estrutura administrativa romana.
A influência da cultura grega era muito marcante no Império, afinal, Bizâncio havia sido fundada pelos gregos. Além disso, abrangia regiões que haviam sido influenciadas pelo helenismo, pois Alexandre, o Grande, havia semeado a cultura grega por todo o imenso Império que havia conquistado.
 
Império Bizantino: política
O Império Bizantino se caracterizou como um estado teocrático. O imperador era tido como representante de Deus, intérprete das coisas divinas e humanas, portanto a autoridade máxima. Nomeado e aclamado pelo povo, pelo Exército e pelo Senado, seu poder não era hereditário, mas era comum que indicasse seu sucessor. Compreendido como a representação do sagrado, detinha o poder absoluto perante a sociedade, portando o título de basileus e ficando responsável pelas decisões políticas, militares, econômicas e religiosas. Essa representação era materializada nas cerimônias luxuosas em torno do Imperador. Essa forma de organização política e social caracterizou o Império Bizantino como um Estado autocrático e teocrático.
 
Império Bizantino: economia
Durante a Alta Idade Média (476-1000), a civilização bizantina encontrava-se econômica e culturalmente mais desenvolvida que o Ocidente latino. Na parte Ocidental do Império, uma das características que marcaram o período era que poucos tinham acesso à instrução, ou seja, poucos sabiam ler e escrever. Entre os bizantinos, os sábios estudavam os textos clássicos que haviam herdado da Grécia e da Roma antigas, por exemplo, a literatura, a filosofia e o direito desses dois povos.
No Ocidente, devido às invasões dos povos bárbaros e mesmo nos séculos seguintes, o comércio e a vida urbana sofreram uma grande regressão. Houve um processo de ruralização e expansão de uma agricultura de subsistência. Em comparação, no Oriente, Constantinopla era uma cidade magnífica, com escolas, bibliotecas, praças abertas e mercados cheios. As moedas, cunhadas pelo Estado, continuavam a circular e havia ainda a produção de tecidos finos tingidos ou ricamente bordados.
O desenvolvimento comercial transformou Bizâncio num centro de atração para pintores, escultores e outros artistas. Os bizantinos contavam com fornecimento de água, levadas por aquedutos e cisternas. O esgoto era jogado no mar valendo-se de um sistema subterrâneo, e ainda contavam com casas de banho públicas. Além disso, tanto pobres como ricos podiam mandar seus filhos para escolas. Contava ainda com hospitais, hospedarias e muitas igrejas. A riqueza do Império era proveniente principalmente do comércio, o qual era controlado pelo Estado.
As manufaturas de tecidos de luxo também eram estatais. Além disso, o Estado ainda recolhia os impostos das propriedades agrícolas. O Estado interferia nas atividades econômicas regulamentando o trabalho dos artesãos e estabelecia impostos sobre os artigos exportados. Também controlava a fabricação e a comercialização de certos produtos, como as especiarias (temperos como cravo da Índia, canela, noz-moscada, pimenta do reino etc.). Dessa forma, o Estado também oferecia emprego a muitas pessoas, pois necessitava de um grande número de funcionários.
Atividades rurais, como agricultura e criação de gado, também tiveram papel relevante na economia. Quanto à posse da terra, estavam concentradas nas mãos dos grandes proprietários, do Estado e de mosteiros. Altos funcionários podiam receber terras por serviços prestados, o que valorizava ainda mais seus cobiçados cargos. Camponeses e escravos serviam como mão de obra.
 
A Rota da Seda
O desenvolvimento comercial do Império Bizantino se deveu à da Rota da Seda. Uma das mais antigas e importantes rotas comerciais, a Rota da Seda foi responsável pelo estabelecimento de relações comerciais entre Ocidente e Oriente. Uma rede de estradas que conectava o Extremo Oriente ao Mar Mediterrâneo abertas por caravanas, sendo utilizada desde o século II a.C. O principal caminho, da Rota da Seda, atravessava diversos reinos e mais de 11 mil quilômetros, servindo também como importante canal de comunicação entre os povos europeus e asiáticos. Essa rota permitiu que diversas inovações tecnológicas desenvolvidas pela China chegassem ao conhecimento do Ocidente.
Durante milhares de anos essa rota foi considerada a avenida central do mundo, possibilitando grandes trocas culturais e comerciais. A porta principal dessa rota para o Ocidente era Constantinopla, propiciando a grandeza do Império Bizantino.
 
2. Religião e cultura
Os bizantinos consideravam seu Império herdeiro da tradição romana, conservando vários elementos da cultura romana, inclusive a religião oficial, o cristianismo. A religião cristã foi um dos principais fatores de união do Império, já que ele era composto por uma grande diversidade étnica.
Império Bizantino: religião
O cristianismo era a religião oficial do Império Bizantino, sendo o Imperador a principal autoridade sobre o mundo cristão. O chefe da Igreja cristã oriental era o patriarca de Constantinopla, escolhido pelo imperador. A escolha do patriarca respeitava algumas regras. Ele era escolhido com base em uma lista tríplice proposta pelos bispos; caso houvesse a recusa entre os três nomes, o imperador indicava um quarto nome. O patriarca era a segunda maior autoridade no Império, sendo também auxiliar e conselheiro no governo.
A religião no Império tinha um papel central na vida da população, como fator de união entre os diversos povos que compunham o império. As festas oficiais e até mesmo as particulares tinham sempre um caráter religioso. A missa era extremamente importante, sendo a presença obrigatória a todos os fiéis. Durante o culto, passagens da Bíblia eram teatralizadas com o intuito de envolver os presentes, acompanhadas de cânticos e diversos rituais. Um dos principais símbolos de religiosidade era a crença nas relíquias e nos milagres alcançados.
Entre as características da cultura bizantina estavam as discussões acerca de assuntos referentes à religião. Essas questões acabaram por dar origem às “heresias”, ou seja, interpretações acerca da religião que discordavam da doutrina da Igreja Católica. No Império Bizantino, o Imperador não tinha apenas o poder político, mas também tinha autoridade sobre a religião. Assim, as discussões religiosas acabavam por gerar problemas políticos.
Uma dessas heresias foi o “monofisismo”, que considerava Jesus Cristo apenas de natureza divina. Segundo a igreja determinou, no Concílio de Calcedônia em 451, Jesus Cristo tinha uma natureza dupla: divina e humana.
 
Os iconoclastas
Outra questão – denominada Iconoclasta – assumiu grande relevância. Refere-se à proibição do culto de imagens, determinada pelo imperador Leão III (717-802), que ordenou a destruição das imagens religiosas por todo o império. Os ícones eram imagens de santos, produzidos e comercializados pelos monges, representando uma das maiores expressões da religiosidade dos bizantinos. Os monges bizantinos eram extremamente respeitados no Império, principalmente pelo povo. Eles se dedicavam a orações e produziam os ícones. Essa prática resultou em uma grande renda aos mosteiros, o que diminuía sua dependência do Imperador. Monastérios passaram a enriquecer, possuindo grandes propriedades e sendo isentos de impostos.
Condenada pela Igreja Católica, a destruição das imagens causou a revolta de grande parte da população. O imperador confiscou os bens dos monges e distribuiu as terras. Apesar disso, era comum ocorrer a desobediência da população, que durante mais de um século organizou diversas revoltas contra a medida imperial. Essa questão demonstra o choque causado pela religião, pois os povos de cultura asiática, que também faziam parte do Império, não concordavam com a adoração de imagens. Ao mesmo tempo, devemos considerar o quanto as grandes propriedades dos monges eram vistas como uma ameaça ao poder centralizado. No século IX, os ícones voltaram a ser permitidos no Império.
 
Igreja oriental e igreja ocidental
A divisão definitiva do Império Romano no século IV não afetou, no primeiro momento, a Igreja, que manteve unida e chefiada pelos bispos das cidades mais importantes (Roma e Constantinopla), considerados patriarcas. Apesar disso, eram visíveis as diferenças entre a igreja ocidental e a igreja oriental.
Por exemplo, os bizantinos tinham adotado a língua grega em sua teologia, já a Igreja Católica Romana mantinha-se com o latim. Outros fatores distanciavam as duas igrejas, como o poder imperial bizantino que se sobrepunha à igreja romana ocidental em aspectos religiosos e políticos, dificultando uma aproximação entre as duas e motivando algumas divergências.
O Grande Cisma do Oriente significou a separação entre as duas igrejas, ocorrida em 1054 e relacionada a uma disputa de poder e influência entre o bispo de Roma e o de Constantinopla. Em seu momento mais radical, a igreja bizantina excomungou o papa de Roma, que retribuiu com o mesmo ato. Para termos uma ideia do impacto do cisma, apenas em 2016 os dois líderes das igrejas se encontraram, depois de 962 anos sem contato mútuo.
 
Império Bizantino: cultura
O Império Bizantino ficou caracterizado por sua grande capacidade de integração cultural, o que possibilitou a criação de uma cultura única, mesclada de diversos elementos orientais e ocidentais. Essa integração cultural é perceptível principalmente na arte e na arquitetura.
A arte bizantina acabou absorvendo elementos romanos, gregos e orientais. Tanto na pintura quanto na produção de mosaicos, o elemento central era a religião e grandes personagens da vida pública, como o imperador e sua corte. O mosaico foi a expressão máxima da arte bizantina, não sendo destinada apenas à decoração, pois também tinha um caráter de instrução dos fiéis pela produção de cenas bíblicas. Muitos imperadores e imperatrizes foram representados em diversos mosaicos, sendo a sua santidade expressada na produção de auréolas.
As principais construções bizantinas, que representam o auge de sua arquitetura, são as catedrais e igrejas, com suas múltiplas abóbodas e o emprego de cúpulas. Um dos principais exemplos deste tipo de construção é a igreja de Santa Sofia, uma edificação grega com elementos orientais.
O cotidiano na capital do Império era propício para o florescimento cultural, já que o comércio possibilitava um intenso encontro cultural. Teatros, cortejos e espetáculos de rua divertiam o povo em Constantinopla. Um dos locais mais frequentados pela população da capital era o Hipódromo. Seguindo os padrões romanos, o hipódromo era destinado a corridas de cavalos, entre outros esportes. Mas durante a história do Império, o hipódromo também foi palco de grandes manifestações e revoltas populares.
 
3. Justiniano e o fim do Império Bizantino
Nesse mosaico na Igreja San Vidal (Ravena – Itália) está retratado o mais importante imperador bizantino, Justiniano. Na obra, ele aparece reunido com seus militares, administradores e religiosos. Observe que a cabeça de Justiniano está rodeada por um halo. Assim, ele assemelha-se à forma como os santos eram retratados. Seu poder não era apenas político, era considerado de origem divina, pois ele era tido como o representante de Deus na Terra.
 
O imperador Justiniano
No auge econômico do Império Bizantino (527-565), Justiniano decidiu reconstituir territorialmente o antigo Império Romano e unificar as facções que dividiam a igreja cristã. Entre seus aliados estava um dos maiores generais da história, Flavius Belisarius (505-565), que participou de inúmeras campanhas militares.
Seu governo caracterizou-se por uma política marcada pelo incentivo à arte e por inúmeras construções públicas, fortalezas e castelos. A que permanece como uma das mais famosas ainda hoje é a Igreja de Santa Sofia, na atual capital da Turquia e antiga sede do Império Bizantino. De Constantinopla saíam para as províncias não só arquitetos, mas também plantas de igrejas, edifícios civis e fortificações. A influência da arte e da arquitetura bizantina se estendeu pela Europa e Ásia.
Entretanto, o projeto que tornou Justiniano tão relevante para a história do Império Bizantino não foi apenas seu apoio à arte, mas a sua tentativa de reunificar as terras do Império Romano e preservar as tradições de Roma. Afinal, os bizantinos se viam como herdeiros da cultura romana e, como tais, gostariam de se manter livres da influência dos povos bárbaros que haviam conquistado amplas regiões na Europa. Perder a parte Ocidental do Império para povos que eram considerados primitivos pelos bizantinos era inaceitável, e por essa razão foi organizada uma campanha ambiciosa: reconquistar a glória do Império Romano.
Por um momento, a empreitada militar de Justiniano teve sucesso, e amplas regiões foram conquistadas: a Itália, a Sicília, a Sardenha, Córsega, o sul da Espanha e a África do Norte Ocidental novamente estavam em poder romano. Mas essa conquista teve um custo alto tanto para os moradores dessas áreas, que se viram em meio a mais uma guerra, quanto para os habitantes do Império Bizantino, que tiveram que pagar altos impostos para financiar todas as conquistas do governo de Constantinopla.
Para Justiniano, essas conquistas eram estratégicas, pois os povos bárbaros, com a queda de Roma, detinham o controle de regiões associadas à produção de alimentos, como o Norte da África, podendo a qualquer momento impedir o envio desses produtos a Constantinopla.
 
A Revolta de Nika
Os altos impostos tiveram um impacto político no Império Bizantino: aumentaram o descontentamento popular, desencadeando uma revolta. Ela ficou conhecida como a revolta de Nika (“Nike” em grego, significa Vitória) e ocorreu em 523 d.C. Com a duração de 9 dias, foi responsável pela destruição de boa parte da capital do Império, além de quase levar Justiniano a fugir de Constantinopla. Segundo os relatos históricos, foi a sua esposa Teodora quem o reprendeu pela atitude, cobrando uma resposta militar aos protestos. Assim foi feito: Justiniano ordenou que as tropas matassem os revoltosos. Ao todo, 30 mil pessoas foram mortas próximas das pistas de corridas da cidade, um número alarmante até para os padrões modernos. Apenas com o uso da violência Justiniano conseguiu se manter no poder.
Mas a vitória de Justiniano não significou que a estabilidade política e econômica do Império foi mantido. Passado as revoltas populares, na década de 540 d.C. uma epidemia dizimou quase 1/3 dos seus habitantes. A epidemia era transmitida por picadas de pulgas e teve um efeito devastador nos planos originais de reunificar do Império Romano.
 
A preservação da cultura romana: o Código Justiniano
Uma das maiores contribuições de Justiniano foi na área do Direito. Seu objetivo era criar um sistema jurídico eficiente para o Estado. Mas o resultado foi além, pois preservou os princípios da razão e da justiça do Direito Romano. Foram nomeados peritos para rever mais de 2 000 obras de grandes juristas romanos e identificar passagens e opiniões que ainda fossem relevantes. O Código Justiniano ficou pronto em 529, o Digesto, em 532, e as Leis Novas, publicadas desde 534 até o final de seu reinado. O Corpo do Direito Civil ou Corpus Juris Civilis incluía todas essas partes.
Justiniano proibiu os pais de venderem seus filhos como escravos, as esposas ganharam o direito de ter bens, à viúva foi concedido o direito de permanecer com seus filhos, entre outras medidas. Na Europa e na América, os códigos jurídicos de hoje têm raízes no direito romano preservado pelos juristas de Justiniano.
 
A Queda de Constantinopla
Em seu apogeu, sob o governo do imperador Justiniano, o Império Bizantino incluía a Grécia, Ásia Menor, a Itália, o sul da Espanha e partes do Oriente Próximo, da África do Norte e dos Bálcãs. Porém, ao longo dos séculos, os bizantinos sofreram ataques dos lombardos e visigodos germânicos, dos persas, dos árabes muçulmanos, dos turcos e dos cristãos latinos. O golpe final sobre o Império foi desferido pelos turcos otomanos, originários da Ásia Central, que haviam adotado o islamismo e iniciado a construção de um império. Eles avançaram sobre os bizantinos a partir da Ásia Menor e conquistaram grande parte dos Bálcãs.
Por volta do início do século XV, o Império Bizantino era constituído apenas por dois pequenos territórios na Grécia e pela cidade de Constantinopla. Em 1453, os turcos destruíram as grandes muralhas de Constantinopla e saquearam a cidade. Depois de mais de dez séculos, o Império Romano do Oriente terminava. Nascia um novo império, o turco, de língua árabe e religião muçulmana. A Queda de Constantinopla marcaria o fim da Idade Média e início da Idade Moderna.
No século V, o Império Romano do Ocidente havia chegado ao fim com a invasão dos povos bárbaros. Nos séculos seguintes, novos reinos surgiram da mistura desses povos – romanos e bárbaros –, e a Igreja Católica tornou-se uma instituição muito influente. Bizâncio era uma das maiores cidades da época e contava com construções grandiosas e ricamente decoradas.
O mundo pré-islâmico
A Península Arábica é uma região próxima ao norte da África, limitada pelo Mar Vermelho, pelo Golfo Pérsico e pelo Mar Arábico. Até o século VII, antes das mudanças provocadas pelo islamismo, é correto afirmar que a região era povoada por grupos sedentários no sul (próximos ao litoral), que praticavam a agricultura, enquanto o centro e o norte eram ocupados por grupos nômades, os beduínos.
Sendo a Península marcada por um grande deserto, este afetou em especial o estilo de vida dos beduínos: eles usavam panos e lenços para protegerem o rosto da areia do deserto e domesticavam animais como camelos e dromedários (mais resistentes do que cavalos, por exemplo) para realizarem as longas travessias pela paisagem desértica. Os beduínos promoviam caravanas para comercializar produtos e artigos nas cidades do litoral e nos oásis do interior, além de realizar pilhagens quando necessário. Assim, a atividade comercial era rica e intensa na Península Arábica. Os povos árabes não apresentavam uma unidade política ou centralizada. Eles se organizavam em clãs ou tribos e seu líder (o xeque ou sheik) respondia pelas funções política e militar. A hierarquia era fundamental na vida desses grupos e a desonra era passível de punição. Conflitos entre integrantes das tribos em virtude da sucessão do sheik eram comuns, assim como disputas entre tribos por fontes de água (oásis) e terras férteis. 
essa época, ainda que os povos da Península tivessem contato com o judaísmo e o cristianismo (com importantes estabelecimentos povoados por pessoas judaicas, por exemplo), prevalecia entre os árabes a crença politeísta, com a adoração não só a diversos ídolos, mas também a elementos da natureza, que eles acreditavam ser habitados por espíritos. A adoração aos ídolos também ocorria anualmente com uma viagem a Meca e uma visita ao santuário dessa cidade (a Kaaba ou Caaba). Também já era conhecida a existência de uma divindade superior de nome Alá, mas que não era objeto de culto.
A adoração nas cidades e os cultos atraíam pessoas de diferentes localidades, promovendo o comércio e as feiras. Assim, a religião e o comércio tinham estreita ligação. Entre aqueles que lucravam com essa relação estavam os coraixitas, tribo árabe que atuava em Meca.
 
O Islã
A Península, porém, sofreu grandes transformações com o surgimento do Islã, no século VII. Maomé ou Mohammed (570-632) é considerado pelos seus seguidores como o último profeta enviado pelo Deus de Abraão aos homens para reconduzir a humanidade ao monoteísmo autêntico e universal. Maomé era um jovem mercador da cidade de Meca. Trabalhou na caravana de Khadija, uma rica viúva, 15 anos mais velha que ele, com quem se casou.
Durante seu trabalho como mercador em caravanas, Maomé teve a oportunidade de conhecer outros povos e religiões, entrando em contato com as premissas judaica e cristã. Segundo a crença islâmica, aos 40 anos de idade, no ano 610, Maomé foi visitado pelo anjo Gabriel pela primeira vez.
A mensagem que Maomé recebeu do anjo Gabriel foi recitada pelo profeta e escrita por seus seguidores, dando origem ao livro sagrado conhecido como Corão ou Alcorão, escrito ao longo de mais de 20 anos. Como uma de suas características, a religião muçulmana não valoriza a imagem e, sim, a palavra, por isso o Alcorão deve ser recitado – seus textos foram compostos de maneira que favorecesse a oralidade.
A religião ganhou o nome de islã, que significa “submissão”, pois o dogma fundamental do islamismo é a submissão dos homens à vontade de Alá em todos aspectos da vida. Os seus seguidores são chamados muçulmanos ou islâmicos.
A religião islâmica exige de seus seguidores o cumprimento de determinados preceitos, denominados “os cinco pilares do islã” (arkis al-islãs). São eles:
• O credo (shahedo) – “Não há outro Deus senão Alá, e Maomé é seu Profeta”.
• A oração (salāt) – orar cinco vezes por dia voltado para Meca.
• O jejum (sawm ou saum) – privar-se de prazeres materiais (alimentos, bebidas, relações sexuais) desde a aurora até o pôr do sol, durante o nono mês do ano lunar, o ramadã.
• A caridade (zakāt) – praticar a caridade com os necessitados. Na verdade a caridade é uma taxa ou um tipo de imposto sobre a riqueza dos fiéis e corresponde geralmente a 2,5% dos bens que permaneceram com a pessoa durante um ano.
• A peregrinação (Hajj) – uma vez na vida, ao menos, peregrinar a Meca se houver condições físicas e financeiras para tal.
 
De Meca à Medina
Nas cidades e nos centros comerciais da Península Arábica, grande parte da população tomara conhecimento do judaísmo e do cristianismo, embora a ideia de uma religião monoteísta não fosse comum entre os árabes. Porém, quando Maomé começou a pregar, um grande número de pessoas passou a seguir seus ensinamentos. Uma das características de sua mensagem era justamente a simplicidade de suas lições, voltadas para recomendações éticas e morais. Em pouco mais de duas décadas, Maomé unificou as tribos árabes, até então envolvidas em constantes disputas relacionadas ao controle das rotas comerciais. Porém, inicialmente teve que enfrentar as poderosas famílias de coraixitas, que dominavam Meca.
A cidade constituía um importante centro comercial, o ponto de encontro das caravanas que lá podiam se abastecer com água e suprimentos, além de realizar o comércio. Meca também era, e continua sendo, um centro religioso, pois lá se concentravam as tribos para adorar centenas de deuses. Em Meca está a Caaba, uma construção em pedra, onde se encontra a Pedra Negra, supostamente um meteorito, considerado pelos muçulmanos um sinal de Alá para os homens.
Com a pregação de Maomé em Meca, as famílias poderosas da cidade entenderam que ele pretendia usurpar o poder e a autoridade política. Maomé foi perseguido, por isso migrou para a cidade de Medina. Esse fato, ocorrido no dia 16 de julho de 622, ficou conhecido por Hidra (Hégira, que quer dizer migração) e marca o início do calendário seguido pelos muçulmanos. Assim, o ano 622 no calendário gregoriano é equivalente ao ano 1 no calendário muçulmano. Em 630, Maomé, já consolidado como líder religioso e político, retorna a Meca, tendo o seu poder reconhecido. Até sua morte, em 632, pela guerra ou pela diplomacia, Maomé conseguiu submeter uma grande confederação de tribos árabes ao seu comando, sendo o grande líder da Península Arábica, com a formação do primeiro Estado Islâmico.
 
A cisma do Islã
Após a morte de Maomé, em 632, era preciso encontrar um sucessor, um califa. Considerado como um defensor da fé, cujo poder derivava de Alá, o califa governaria segundo a lei muçulmana, tal como é definida no Alcorão. O governante que não aplicasse as leis do Alcorão falhava no cumprimento das suas obrigações. O islamismo era, portanto, mais do que uma religião, constituía também um sistema de governo, de leis e de códigos sociais que, segundo os muçulmanos, uniam todos os seus adeptos numa única e abrangente comunidade.
Sem uma designação por parte de Maomé sobre seu sucessor, Abu Bar, amigo pessoal de Maomé, tornou-se o primeiro califa. Depois dele, assumiram Umar ibn Al-Khatab e Uthman ibn Affan, respectivamente. Esses homens, porém, não tinham ligação direta com Maomé, diferentemente de Ali ibn Abi Talib, primo e genro do profeta.
Ali clamava para si o direito de suceder a Maomé – e aqueles que defendiam a sucessão a partir do parentesco com o profeta foram chamados de Shiat Ali (xiitas). Os que, ao contrário, defendiam que deveria assumir a liderança dos muçulmanos aquele escolhido pela comunidade, conforme os preceitos da Suna, ficaram conhecidos como sunitas.
Ali tornou-se o quarto califa após a morte de Maomé, sendo assassinado por opositores, em 661. A morte de Ali encerra o que se chama de “Islã histórico”. Ainda em 661 foi fundada a dinastia omíada, sunita, com califado sediado na cidade de Damasco. A cisma entre os grupos islâmicos não impediu a difusão de seus ensinamentos
2. Expansão islâmica
 A união entre os árabes fez com que surgisse uma força poderosa dedicada a Alá e preparou o caminho para a difusão da fé islâmica. Sob a autoridade dos primeiros quatro califas, rapidamente dominaram o Império Persa e tomaram algumas províncias de Bizâncio.
 
O início da expansão islâmica 
Para entender o processo de expansão, é preciso retomar o início da história do Islã. Ao morrer, em 632, o profeta Maomé deixou como legado uma nova religião e a Península Arábica unificada. Sob o reino dos quatro primeiros califas (“Islã histórico”), os árabes muçulmanos iniciaram seu processo expansionista para além dos limites da Península. 
Nessa época, as duas grandes potências eram os persas e os bizantinos. Ambos foram derrotados em seus próprios territórios pelo avanço árabe. Em 636, a Síria, anteriormente dos bizantinos, caía sob poder árabe. A tomada da capital da Pérsia, Ctesifonte, ocorreu no ano seguinte, abrindo caminho para o domínio sobre as terras hoje correspondentes ao Iraque. Em 651, os árabes colocavam fim ao Império Sassânida (Império Persa), com a morte do último rei, Izdegerdes III. Entre 639 e 642, o Egito e sua capital, Alexandria, foram ocupados.
Vale ressaltar também que os bizantinos haviam adotado a fé cristã, entretanto a conversão não havia se propagado por toda a população. Assim, além de pagar altos impostos, aqueles que não seguiam a fé da realeza eram perseguidos, acusados de formar igrejas “heréticas”, como ocorreu com os coptas. No Império Persa, a situação não era muito diferente. As províncias mais férteis do Iraque eram povoadas por cristãos, que não adotaram a religião das classes dirigentes, o zoroastrismo. Por isso, os árabes encontraram pouca resistência durante a expansão, uma vez que uma parcela da população recebeu os invasores com simpatia.
A partir de 661, com a morte de Ali, foi estabelecido o califado omíada. Com ele, a expansão do Islã continuou. Entre o século VII e o começo do século VIII, os omíada haviam dominado todo o Magreb (noroeste da África). Na África, a expansão islâmica garantiu, em 670, a fundação da cidade de Ifríquia (na atual Tunísia), a primeira província muçulmana na África do Norte. A região foi fortemente influenciada pelo islamismo, sendo a religião predominante até hoje. 
Com a participação de africanos, incluindo berberes, os árabes avançaram para a Península Ibérica, derrotando os visigodos e iniciando um domínio que se estenderia por oito séculos (dos séculos VII ao XV). O avanço na Europa só não foi maior porque os árabes foram impedidos pelos francos sob liderança de Carlos Martel, em Poitiers (França). Ainda assim, cem anos após a morte de Maomé, o Estado Árabe já englobava um extenso território, que seria a base do mundo islâmico
Sob governo omíada, os árabes muçulmanos ficavam isentos de impostos, que recaíam sobre os não convertidos e mesmo sobre aqueles recém-convertidos ao islamismo. Também ficava restrito aos árabes muçulmanos e a alguns povos conquistados (como os persas) o acesso aos serviços administrativos. Assim, uma minoria governava e usufruía de benefícios, em detrimento do restante da população. Essa situação levou à crise e consequente queda do governo omíada. 
 

Os califados islâmicos e o avanço sobre a Península Ibérica
A queda dos omíada levou ao surgimento de um novo califado, o abássida, em 750. Esse califado teve longa duração, mantendo-se até 1258. Foi um período de intensa produção cultural e científica, a chamada “era de ouro do islã”. Entretanto, foi também um período em que a hegemonia do califado não se sustentou e diferentes lideranças surgiram. Sob o governo abássida a capital do Império foi transferida de Damasco (na Síria) para a recém-fundada Bagdá, no Iraque, em 762.
O avanço abássida se deu em escala menor do que o dos omíada. Eles anexaram a Sicília, Córsega e Sardenha. Entretanto, é possível dizer que o território abássida era menor do que o omíada. Nos primeiros 50 anos de reinado, os abássidas perderam o controle sobre todas as províncias africanas a oeste do Egito e Ifríquia (Argélia e Tunísia) tornou-se também independente, fundando uma nova dinastia. 
Na Espanha, por sua vez, um descendente omíada governava de modo independente. Córdoba se converteu em um emirado independente de Al-Andalus (de onde se originou o nome atual da região, Andaluzia) e, no século X, Abderramão III, da dinastia omíada, proclamou a total independência criando o Califado de Córdoba, que chegou a ter uma população de cerca de 500 mil habitantes. Córdoba possuía 700 mesquitas, inúmeros palácios e 70 bibliotecas, uma delas responsável por cerca de 500 mil manuscritos, além de 900 casas de banho; foi a primeira cidade europeia a ter as ruas iluminadas. Abderramão III ainda fundou uma universidade.
O califado omíada dominou o mundo ibérico até o século XI, quando houve a fragmentação em diversos reinos muçulmanos. Nos séculos seguintes, o poder foi novamente centralizado a partir da invasão dos grupos islamizados do norte da África (de origem berbere): os almorávidas e os almóadas. O poder desses grupos sobre a Península Ibérica foi duramente combatido pelos cristãos no que ficou conhecido como Reconquista (iniciada no século VIII, encerrou-se em 1492).
 
A influência cultural muçulmana no Ocidente 
Nos séculos VIII e IX, sob o domínio dos califas abássidas, a civilização muçulmana entrou em sua “idade do ouro”, sintetizando as tradições culturais dos bizantinos, persas e indianos às suas próprias. Assim, durante a Alta Idade Média europeia (séculos V-XI), quando o conhecimento na Europa se encontrava sob a hegemonia da Igreja Católica e a maioria da população era analfabeta, os muçulmanos tinham uma civilização que prezava pelo conhecimento científico.
A ciência, a filosofia e a matemática muçulmanas basearam-se, em grande parte, nas realizações dos gregos antigos. Os árabes tiveram contato com o legado dos povos gregos por meio das civilizações persa e bizantina, que foram responsáveis por conservar muitos textos clássicos. Então, traduziram esses textos para o idioma árabe e acrescentaram comentários, preservando a herança filosófica e científica da Antiguidade Clássica. Os textos, com os acréscimos feitos pelos árabes, foram posteriormente levados para a Europa, assumindo um importante papel no desenvolvimento do conhecimento nos séculos seguintes. Foi assim que textos de Aristóteles e Platão primeiro foram traduzidos para o árabe e, depois de muito tempo, chegaram aos europeus ocidentais, sendo traduzidos para o latim.
 
Os califados e a fragmentação do poder 
Diferentemente dos omíadas, os abássidas enfrentaram um grande processo de desagregação, com o surgimento de diversas dinastias locais, especialmente após a segunda metade do século IX. Isso se deu pela grandiosidade do território, que era difícil de ser controlado, e pelas consequentes dificuldades de comunicação do califado, que lidava com povos de diversas origens. Havia também um intenso movimento de libertação em relação ao poder central estabelecido. Assim, em determinado momento da história, o chamado mundo islâmico contava com três califados: os omíadas na Espanha, os abássidas, com base em Bagdá, e os fatímidas (califado fundado em 909), de origem xiita, que dominaram o Magreb, a Síria e o Egito. 
Os abássidas permaneceram até a metade do século XIII. Durante esse período, surgia outra ameaça ao poder desse califado. Da Ásia organizavam-se e dominavam cada vez mais territórios os turcos seljúcidas, nômades que aderiram ao Islã sunita no século IX. Eles chegaram a tomar Jerusalém, provocando a ira dos cristãos e a luta pela retomada da cidade santa, as Cruzadas. Os turcos, de maneira geral, acrescentaram ao mundo muçulmano diversos territórios, especialmente localizados na Ásia Menor Central e Oriental. 
O poder tanto dos abássidas quanto dos seljúcidas chegou ao fim com as invasões promovidas pelos mongóis, especialmente a partir do século XIII. Os muçulmanos constituem nova força apenas com os turcos otomanos, que tomaram Constantinopla em 1453 e formaram um grande império até 1922, com domínios sobre diversas localidades da Europa, do Oriente Médio e do sudeste europeu. Os otomanos desenvolveram um sistema de administração eficiente, mas não conseguiram restabelecer o esplendor cultural que o governo dos califas abássidas de Bagdá conseguiu.
 
Sociedade e economia 
O domínio dos muçulmanos, de maneira geral, implicava grande respeito àqueles de religião estabelecida, especialmente monoteísta. Por isso, as conversões de judeus e cristãos, por exemplo, não eram impostas.
Com isso, porém, aqueles que acreditavam na adoração de elementos da natureza, por exemplo, eram submetidos à conversão. Muitos dos que resistiram foram escravizados. Essa crença fomentou intenso comércio de escravizados africanos para o Mediterrâneo e outras partes da Europa promovido pelos muçulmanos – muito antes, por exemplo, da chegada dos portugueses ao continente africano, no século X
Socialmente, outro ponto de destaque diz respeito à ordenação familiar: na sociedade muçulmana há intensa hierarquia, em que o homem está acima da mulher. Ainda que existam alguns elementos favoráveis à mulher, como o limite ao número de esposas do marido, e o direito de ela se separar do esposo, é fato que os homens são vistos em uma situação de superioridade.
Em relação à economia, podem-se destacar a atividade pastoril e agricultora, além do intenso comércio, como práticas dos povos islamizados. Aliás, foram os muçulmanos que introduziram modernas técnicas de plantio e de irrigação na Península Ibérica, além de fomentar o desenvolvimento da metalurgia na região
 
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