O BRASIL HOLANDÊS DE NASSAU

A ocupação holandesa no Brasil deriva das relações entre as Coroas europeias desde o século XVI. A unificação de Leão e Castela, a expulsão dos mouros da Península Ibérica e a chegada à América confluíram para que a Espanha se tornasse uma potência europeia. O banimento dos judeus na Espanha levou-os a uma dispersão pelo Mediterrâneo, mas também em direção aos Países Baixos, região tolerante, em uma Europa pouco propensa à liberdade religiosa. O casamento de Maximiliano da Áustria com Maria da Burgúndia levou a Holanda para a Casa de Habsburgo, no final do século XV, tendo seu neto, Carlos V, se tornado imperador do Sacro Império, rei da Espanha e senhor dos Países Baixos.
Antuérpia era o centro econômico de uma área próspera, graças à produção e ao comércio têxtil. No final do século XVI, contudo, enfrentava uma crise econômica, gerada por quebras agrícolas, salários achatados e embargo inglês. A insatisfação aumentava com o domínio dos espanhóis, tanto pelo absolutismo como pela perseguição religiosa. O protestantismo, surgido em terras germânicas, atraiu as elites holandesas em sua luta contra o domínio ibérico. A parte setentrional rebelou-se e declarou sua independência de Carlos II, em 1581, com o Ato de Abjuração, que denunciava os abusos do rei espanhol.
Surgia, assim, a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, formalmente reconhecida pela Espanha, no início do século XVII. Na Península Ibérica, em 1580, ocorreu a unificação das Coroas de Portugal e Espanha, estendendo-se a chamada dominação espanhola até 1640. Na verdade, a administração portuguesa manteve, tanto no reino como nas colônias, feições próprias: a língua portuguesa foi mantida e os foros e costumes lusos preservados. Contudo, a perda da independência significou a inclusão de Portugal em alianças e conflitos diplomáticos da Espanha. Portugal havia sido sempre aliado dos ingleses, e os holandeses, como adversários dos espanhóis, não deixavam de contar com a simpatia portuguesa, mas tudo isso foi revertido pela ausência de uma política externa propriamente portuguesa. Embora ocupados com suas lutas no continente europeu, os holandeses adotaram, como parte da sua política comercial e externa, a colonização de partes do continente americano sob controle do adversário espanhol. Em 1602, o governo das sete províncias unidas criou a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais, e, nas duas décadas seguintes, os holandeses mandaram expedições para o que viria a ser o Canadá e os Estados Unidos da América, com a fundação de Forte Nassau, no Rio Hudson, em 1614, a primeira cidade holandesa no Novo Mundo.
Em 1621, fundou-se uma nova Companhia, agora das Índias Ocidentais, que atacou a cidade de Salvador, em 1624, em tentativa malsucedida de dominação. No entanto, em 1630, os holandeses conquistaram parte considerável da colônia portuguesa, no atual Nordeste do Brasil, estendendo essa ocupação até 1654. Uma sede da Companhia foi fundada no Recife, tendo o governador João Maurício de Nassau iniciado uma política de imigração, assim como de desenvolvimento das artes e das ciências. A ocupação holandesa adotou uma política de acomodação com os colonos portugueses, permitindo a continuidade do uso da língua, assim como das práticas religiosas católicas. O domínio holandês pode ser dividido em três períodos.
O primeiro, entre 1630 e 1637, foi caracterizado pela luta entre colonos e holandeses, terminando com a vitória holandesa e a anexação de uma imensa área entre o Ceará e o Rio São Francisco. Nesse período, a vitória holandesa resultou, também, do apoio de habitantes locais desencantados com o domínio português, como no famoso caso de Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho que foi importante para a derrota dos portugueses e que acabou preso e executado.
A segunda etapa, entre 1637 e 1644, assinalou o governo de João Maurício de Nassau e foi caracterizada pela paz e por uma política de cooptação das elites locais. Alguns senhores de engenho fugiram para a Bahia e suas propriedades foram vendidas a crédito, o que trouxe apoio imediato dos que permaneceram nas áreas sob domínio holandês. Além disso, Nassau incentivou o cultivo da mandioca, para abastecer de maneira mais adequada a população urbana. A tolerância religiosa, por sua vez, permitiu que os judeus fundassem as primeiras sinagogas do continente americano e contribuíssem para o florescimento comercial da região.
Do ponto de vista cultural, a política holandesa contrastava com a portuguesa, que nada permitia ou incentivava. Os holandeses trouxeram artistas, pessoas letradas, naturalistas e outros homens de cultura. Frans Post tornou-se famoso como pintor de paisagens e cenas brasileiras. Nassau preocupou-se com uma reforma urbana com padrões muito distintos daqueles existentes na colônia lusa. Inspirado nos princípios renascentistas, já bem difundidos na Europa e mesmo nas colônias espanholas na América, fundou a cidade Maurícia, com traçado geométrico e canais, inspirada, em parte, em Amsterdã.
O terceiro período (1644-1654) coincide com a saída de Nassau, por suas divergências com a Companhia das Índias Ocidentais, em 1644. A restauração da independência de Portugal, em 1640, foi essencial para uma mudança na determinação portuguesa em seu combate aos holandeses. A criação do Conselho Ultramarino, em 1642, permitiu à Coroa portuguesa traçar uma estratégia colonial que não sintonizava com a dominação espanhola. Entre 1645 e 1654, houve uma guerra de reconquista portuguesa contra a presença holandesa na colônia, que contou com a adesão da Coroa apenas a partir de 1647. Muitos senhores de engenho alinharam-se aos holandeses e a participação da Coroa marcou uma mudança de postura que levou à expulsão dos holandeses. O interior foi conquistado pelos portugueses e seus aliados, como o índio Felipe Camarão, mas a costa continuava sob domínio holandês. A guerra entre a Holanda e a Inglaterra, a partir de 1652, dificultou o envio de recursos holandeses para a Nova Holanda. Além disso, a antiga aliança entre holandeses e portugueses tinha fortes interesses, na própria Holanda, para que os dois reinos entrassem em acordo e o sal português, tão importante para a indústria pesqueira dos Países Baixos, chegasse à República Unida. Em 1654, os holandeses capitularam. A vitória da colônia deveu-se, também, ao envolvimento, na fase final, de elementos locais, que no início da ocupação holandesa tinham, em grande parte, preferido o domínio brando dos holandeses à exploração colonial ibérica. A situação mudou com a crise da Nova Holanda, abandonada pela metrópole, enquanto Portugal passava a representar uma oportunidade para as elites que haviam sido dispersas.
O boi não bateu asas, mas voou
Conheça a incrível história do animal que passeou pelos céus de Recife no século XVII!
“E então: você acreditaria se alguém lhe contasse que boi voa? Brincadeira ou não, no tempo em que os holandeses invadiram o Recife, um boi voou nos céus da cidade. Essa história, que pode parecer sem pé nem cabeça, começa assim...
Você já deve ter ouvido falar que, para explorar as riquezas naturais do Brasil, veio gente de toda parte. Entre 1580 e 1640, os reinos de Portugal e Espanha dividiam o domínio de nosso território. Nessa história, havia também os holandeses, antigos parceiros dos portugueses na produção de açúcar e responsáveis por sua distribuição no mundo, mas inimigos dos espanhóis. E aí, tudo começa.
Proibidos pelos espanhóis de continuar no Brasil, os holandeses, a partir de 1630, invadiram e dominaram boa parte do Nordeste. Até 1654, fizeram a sede do governo Brasil Holandês em Pernambuco. Entre seus principais feitos está a fundação da cidade de Maurícia, na ilha chamada Antonio Vaz, atual Recife. O nome da cidade foi uma homenagem ao governante mais famoso nas conquistas holandesas no Nordeste brasileiro: o Conde Maurício de Nassau. Ele governou o chamado Brasil Holandês entre os anos de 1636 e 1644 e foi o responsável pelo inesperado voo do tal boi.
 
Um dia, um boi, uma ponte
No dia 28 de fevereiro de 1644, um domingo, seria inaugurada uma ponte de madeira que o Conde de Nassau havia construído em Recife. Para a ocasião, o nobre holandês organizou um grande espetáculo de comemoração que marcaria também o dia de sua partida do Brasil em retorno à Holanda. Ele queria muita gente e, para isso, conclamou toda a população para assistir a um fato inusitado: ele faria “um boi voar” sobre sua ponte.
A ponte sobre o Rio Capibaribe separava o Recife, sede do governo, da Ilha de Antonio Vaz, onde o Conde morava. Era uma obra grandiosa. A ponte possuía uma parte levadiça, permitindo a passagem de grandes embarcações. E o boi, como havia prometido o governante, iria voar sobre ela. Ninguém conseguia imaginar de que forma um animal pesado e terrestre como um boi poderia voar. Nassau, por sua vez, aproveitaria a curiosidade geral para ganhar dinheiro e recuperar os gastos com as obras de construção. Todos que quisessem assistir ao espetáculo teriam de pagar uma quantia em dinheiro.
No finzinho da tarde do domingo, o conde colocou um boi empalhado pendurado em uma corda que estava amarrada entre as duas torres do Palácio Friburgo, sede de seu governo, pagando sua dívida com a sociedade.
Como assim?
Embora parecesse mágica ou algo inexplicável, Maurício de Nassau nada mais fez do que usar sua engenhosidade e seus conhecimentos básicos de ciência. Primeiro, escolheu o animal que participaria do espetáculo. Deveria ser um boi manso, que se mantivesse parado durante todo o dia, para ser observado por todos. Escolheu então o “boi do Melchior”, um animal de pelo amarelado, famoso na cidade por entrar nas casas e subir escadas.
Enquanto o povo observava de dia, no chão, o boi que iria voar à noite, o Conde ordenou que se arranjasse um bom pedaço de couro, do tamanho mesmo de um boi de verdade. Empalhado, o pedaço de couro foi inflado como um balão. Aí, foi amarrado em cordas bem finas, que não pudessem ser vistas pelo público, que lotava as praias e os barcos. Preso por roldanas, o falso boi foi controlado por alguns marinheiros que o faziam dar muitas cambalhotas em pleno ar, para o delírio de todos que pagaram para assistir ao grandioso espetáculo!
A apresentação aconteceu com a presença de muitas pessoas, certamente de queixo caído ao ver algo tão inesperado e maravilhoso. O conde foi muito aplaudido pela sua peripécia. Maurício de Nassau cumpriu a promessa de fazer um boi voar, ficando muito conhecido e admirado por todas aquelas pessoas pela sua criatividade e astúcia.
A inauguração da ponte com boi voador fez tanto sucesso que entrou para a história dos holandeses em Pernambuco. E mais, os cofres da Coroa holandesa faturaram uma boa cifra com a cobrança de ingressos, recuperando quase todos os gastos com a construção da ponte. Por causa dessa peripécia, de outras tantas e de suas grandes obras, o conde se tornou um personagem lembrado ainda hoje pelos pernambucanos. A história do boi voador atravessa os tempos. Já virou letra de música e até tema de escola de samba!”
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