Os francos e o Império de Carlos Magno

Um recorte habitual do milênio medieval é o início do período na data de 476, visto que neste ano Roma deixa de ter um imperador devido à invasão bárbara. O rei bárbaro Odoacro proclama-se rei, governando até outro rei bárbaro, o ostrogodo Teodorico, tomar-lhe o poder. O fim deste período, normalmente, associa-se ao ano de 1453; alguns historiadores consideram 1492, devido à investida dos turcos otomanos sobre Constantinopla e a tomada da Península ibérica pelos muçulmanos, respectivamente. Porém, mais do que tratarmos a história como um período definido por marcas temporais, devemos compreendê-la como um processo e, nesse sentido, estabelecermos nossa análise.
Na longa Idade Média - conceito aplicado pelo historiador medievalista Jacques Le Goff - observarmos transformações quantitativas e qualitativas estabelecidas por meio de permanências e algumas rupturas na história da Europa. As permanências podem ser observadas por meio dos ritos da realeza sagrada, dos fundamentos técnicos da produção material, do funcionamento social baseado em uma hierarquia. E as rupturas são bastante sutis e lentamente estabelecidas, o que, segundo Jacques Le Goff, nem sequer podem se localizado pelos eventos, mas notado em desdobramentos lentamente configurados.
 
Antiguidade Tardia ou Tardo Antigo: conceito
Segundo o historiador Peter Brown, o período entre os séculos II até o século VIII é caracterizado, antes de tudo, por uma lenta passagem de uma mentalidade identitária cívica a uma mentalidade identitária religiosa, período que ele chamou de late antiquity, antiguidade tardia.
A Antiguidade Tardia concentra a perspectiva de que mudanças políticas, econômicas e sociais ocasionadas pela desestruturação do Império romano do Ocidente conformaram um novo tempo histórico, uma nova antiguidade, que ainda não se tratava da Idade Média em si, mas de uma transição para este período. Esse conceito foi difundido a partir dos historiadores Henri-Irénée Marrou e Peter Brown, os quais substituíram a nomenclatura usual de Baixo Império pela de Antiguidade Tardia.
Estabelece um olhar sobre o período em que estruturas romanas se desintegraram lentamente e se enlaçaram a estruturas germânicas, conduzindo à permanência e também à supressão ou adequação de elementos. É normalmente associado aos sinônimos Antiguidade Tardia e Alta Idade Média, porém a opção por uma destas nomenclaturas carrega diferenças conceituais. A Antiguidade Tardia concebe um desenvolvimento lento e permanente de ressignificações de valores romanos devido à aculturação com os povos germânicos (bárbaros) que passam a exercer domínio sobre áreas na Europa.
 
Características: Ruralização da sociedade
A decadência do ambiente urbano é fruto do êxodo urbano ocasionado pelas constantes ameaças que os habitantes das cidades da época do Império Romano estavam suscetíveis. Além disso, a escassez de alimentos e de moradia levou muitos a buscarem sua subsistência no ambiente rural. Os pequenos proprietários tinham muitas dificuldades em pagar impostos, e buscaram se associar aos grandes proprietários rurais a fim de subsistirem.
A Europa, segundo a cultura greco-romana, organizava-se a partir da cidade. O espaço ao redor, chamado de ager, era utilizado para a agricultura, com práticas de horticultura, com destaque para o cultivo de trigo, oliveiras, videiras e alguma criação ovina. Com a entrada dos povos germânicos (bárbaros) nos territórios e a predileção desles pela alimentação com base na carne, a caça, a pesca e a criação selvagem, principalmente de porcos, foi incrementada. Deste modo, a economia tomou os rumos de uma orientação silvo-pastoril.
A insegurança das cidades devido aos movimentos migratórios dos germânicos, combinada à falta de moedas, à ausência de manutenção das estradas romanas, essenciais para o abastecimento comercial, levaram à regionalização das atividades produtivas, e paralelamente, à fragmentação política. As cidades diminuíram de tamanho, passaram a ter papel apagado. A sociedade se ruralizou e os campos passaram a abrigar um contingente maior de pessoas.
 
Fortalecimento das relações pessoais
O desaparecimento da escravidão, prática característica da época romana, refere-se a causas religiosas, militares e econômicas. Ainda que a Igreja Católica não se opusesse publicamente à escravidão, a disseminação de práticas cristãs modificou a percepção que se tinha sobre os escravizados e, consequentemente sua exclusão da sociedade. Ao reconhecer escravizados como cristãos, conferindo-lhes o batismo, a Igreja Católica diminuiu a separação entre eles e os livres e assim solapou um dos fundamentos ideológicos da escravidão, de que os escravizados eram pessoas com natureza infra-humana e por isso dissociados radicalmente de outras pessoas, as livres. Em relação às causas militares, o fim das guerras de conquista dos romanos desabasteceu o mercado de escravizados. As causas econômicas, expostas em trabalhos do historiador Marc Bloch, referem-se aos altos gastos em se manter um escravizado. Desse modo, os senhores preferiram estabelecer relações de colonato com sua mão de obra, pois assim tinham uma vantagem de terem menos custos. Também tornou-se bastante difícil manter domínios extensos de terras e as propriedades diminuem de tamanho. Em propriedades menores, o colonato funcionava muito bem. Assim, apesar da escravidão ser mantida, ela é enfraquecida e começa a desaparecer por volta do século X e inícios do XI. Os escravizados libertos engrossaram as fileiras do campesinato livre. Ao mesmo tempo, as relações pessoais se acentuam entre os nobres que se tornaram vassalos uns dos outros; porém, tratava-se de uma parcela ínfima da população europeia.
 
Igreja Católica
A partir do imperador romano Constantino as perseguições aos cristãos cessaram, o que favoreceu sua dispersão. Quando, mais tarde, o imperador Teodósio tornou o cristianismo a única religião lícita no império, em 392, a fé cristã pôde se estabilizar na Europa. Nessa forma, ao longo do século IV o cristianismo cresceu e passou a estruturar uma rede de dioceses que se superpuseram às cidades romanas. O bispo católico tornou-se a principal autoridade urbana. Nas áreas rurais, na mesma época, o movimento monástico se impregnou, ocupando os ambientes. A luta contra o paganismo se intensificou e o culto aos santos se estabeleceu como cultura popular.
Os povos germânicos invasores do império romano passaram a se cristianizar a partir da conversão de seus reis e do aparato de sacralização da monarquia. Com a conversão do rei dos francos, Clóvis, o processo de formação da Igreja, do papado e do Império no ocidente medieval conduziu a conformação de uma sociedade europeia segundo os valores cristãos.
A concepção cristã do mundo físico e sobrenatural orientou intelectualmente a mentalidade medieval. A presença de um discurso racional, filosófico e médico relacionando o dualismo corpo-alma introduziu um terceiro termo a concepção de mundo dos homens e mulheres, o espírito. A partir disso, muitas obras de teor filosófico-teológico se desenvolveram, como os escritos de Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino.
A Idade Média foi um período em que existiu uma pujança do pensamento racional, articulado, principalmente, dentro da filosofia patrística. Um discurso teológico argumentado e sistemático para refutar heresias e confrontar cismáticos conduziu ao nascimento da universidade e a um escopo de conhecimentos científicos introduzidos em diversas áreas, desde a agricultura, a medicina, como também a filosofia e a teologia.
 
Reinos romano-germânicos aderem ao cristianismo
Visigodos, ostrogodos e vândalos eram convertidos a uma seita herética do cristianismo quando se estabeleciam dentro dos territórios que eram do império romano, devido à convivência na época em que pressionavam as fronteiras do território romano, com a fé cristã. No entanto o cristianismo professado por estes povos seguia a doutrina ariana, a qual não cria na natureza divina de Cristo e por isso não seguia a ortodoxia católica; era considerada uma heresia e combatida pelos bispos católicos. Os francos, por sua vez, eram ainda pagãos quando se instalaram dentro do território romano, e converteram-se ao catolicismo no fim do século V. Dessa forma, os francos são o primeiro grupo germânico que professou uma fé de acordo com a crença da população e do clero reminiscente dos cristãos romanos. De tal modo foram seguidos, mais tarde, em 587, pelo reino dos visigodos na Espanha, que também se converteu ao catolicismo. Isto foi determinante para que os francos articulassem a expansão de um reino na região da atual França, o qual seria responsável pela unificação da cristandade sob o catolicismo.
 
Dinastia Carolíngia
A dinastia carolíngia teve início quando Carlos Martel, que era prefeito do palácio do rei dos francos, liderou as tropas francas na vitória sobre os muçulmanos em Poitiers. A partir deste evento, sua família se tornou uma aristocracia militar de alto prestígio no reino. Seu filho, Pepino, continuou a obra de unificação militar e em 751 tornou-se rei dos francos.
Exímio estrategista militar, Pepino, que era católico, socorreu o bispo de Roma quando o povo germânico dos ombardos ameaçou a integridade da igreja em Roma. Em 754 Pepino foi ungido em uma cerimônia católica, colocando sobre a função do rei a perspectiva de comprometimento com a defesa da cristandade.
O filho de Pepino, Carlos Magno, teve um reinado longo e de muitas conquistas militares. Os avanços dos francos nos territórios também significava o avanço da fé católica. Assim, a reconquista da Península Ibérica (que estava em poder os muçulmanos), os embates com os eslavos na Polônia, com os avaros na Hungria, projetaram o reino dos francos como detentor de um Império cristão.
Na corte de Carlos Magno desenvolveram-se grandes letrados que também eram religiosos e que se colocavam a serviço da coroa franca. Com o objetivo de ler e difundir os textos fundamentais do cristianismo, dispor de exemplares mais numerosos e confiáveis, tanto da Bíblia como de manuais litúrgicos para orientar a celebração da missa católica, desenvolveu-se um corpo de eruditos que se dedicaram aos estudos: foi o renascimento carolíngio (séc. VIII-IX). A palavra renascimento é devido à propagação de textos antigos, de escritores gregos e romanos, que ensinavam gramática, retórica e disciplinas mestras. Este retorno ao mundo antigo foi visto como um “renascimento”. Deste modo, por meio dos religiosos católicos francos houve a preservação da literatura latina clássica e a preferência pelo uso do latim como língua transmissora do texto bíblico.
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